segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O desafio da Europa

(Texto publicado no primeiro número da revista do Núcleo de Estudantes Católicos da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa)

A Europa viveu sempre uma existência desafiada. Como Hércules, ainda no berço, estrangulou as serpentes de Hera, também a Europa nascente repeliu a grande serpente asiática, destroçando Dário em Maratona e encurralando Xerxes nos estreitos de Salamina. A formação do colosso Romano serviria de contraponto ao assalto do Oriente até que as fronteiras do Reno e do Danúbio fossem forçadas, e feita em ruínas a ordem antiga, competisse à religião cristã a glória de resgatar a Europa, logrando a síntese do espírito grego e romano dentro de um novo horizonte de sentido.

O continente que se lança no mar, costeando África, comerciando na Ásia, desbravando mar até à América, parece converter-se no eixo de rotação do grande fenómeno humano, embora o venham em breve a varrer os cismas da Reforma, a agregação classista da revolução industrial e o tumulto das várias etnias, sem ágora comum onde se encontrem. Como consequência final, a Europa cavará a sua sepultura nas trincheiras da guerra, vindo depois a ser partida entre os campos de influência de potências ideologicamente motivadas.

Suplantada a divisão política, a Europa estreita-se hoje entre três grandes blocos: o dos Estados Unidos, que em todo lugar parece perseguir o intento que cada vez mais lhe escapa de manter uma ordem mundial unipolar; o da Rússia, que retorna na aparência à raiz que comunga com o Ocidente desde a evangelização dos eslavos por Cirilo e Metódio e o baptismo de Vladimiro, em 988, mas que se define por contraste com a Europa que já não crê; e o cada vez mais altaneiro Crescente, que sobre ela, incerta e fraca, se agiganta, vivo e forte.

Mas nenhum desafio é maior do que aquele que a Europa põe a si mesma. Ela não se destacou da Ásia e ganhou autonomia em razão de rígidas fronteiras geográficas, mas por causa da sua cultura. Não são tanto as colunas de Hércules e os Urais, como os desfiladeiros solares da Grécia, as colinas de Roma e os muros de Jerusalém que a delimitam. Se perder a sua mirífica cultura, não existirá mais. E, hoje, a Europa assemelha-se ao homem que subiu ao topo da montanha apenas para se derribar no mais fundo precipício. Tendo tudo isto em atenção, o NEC propõe à Faculdade dois momentos de reflexão. 

Foi na Europa que primeiro se esconjurou a tirania do mito e se reconheceu que há uma ordem do mundo, que integra também uma ordem das relações humanas. A subversão desta ordem assume ultimamente a forma da ideologia do género, expressão acabada de um misticismo que radicaliza a dualidade de corpo e espírito e de um individualismo atomista que é carrasco de civilizações. 

Foi também neste continente que o homem começou de maneira mais perfeita a medir a sua vida pela transcendência. Também essa liberdade – a liberdade religiosa – é ameaçada por um positivismo próprio de uma razão mutilada, que formula as suas teses cada vez mais dogmaticamente. Os dogmas do género têm, aliás, nesta guerra, servido como pretexto para escorraçar do espaço público as religiões que ousem defender o matrimónio tal como ele é. 

Pensar sobre a ideologia do género e a liberdade religiosa é, pois, lembrar que ante a sedução dos misticismos e das barbáries, o desafio da Europa foi sempre, será sempre, o de ser Europa.

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