quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As prioridades

O debate político em Portugal espanta o observador por vários motivos. Um dos seus aspectos particularmente surpreendentes é a quase completa concentração das preocupações públicas nas questões económicas e financeiras. A ideia formada no espectador de todas as polémicas eleitorais é que os partidos se distinguem sobretudo pela sua proposta de Orçamento de Estado e que é realmente do Orçamento de Estado que depende a sobrevivência do país. Podia bem ser que tudo se resumisse a uma conspiração e, se o fosse, seria uma conspiração de sucesso - a de conduzir toda a nossa atenção para assuntos dessa natureza, a de nos fazer crer que os Partidos se dividem e opõem em Esquerda e Direita por causa deste ou daquele artigo da lei orçamental, enquanto nos bastidores se urde discreta uma teia complexa em torno das coisas verdadeiramente essenciais.

A economia e as finanças são bolorências necessárias. Se dissermos que a acção económica e as contas públicas são sempre meios e não fins, porque o homem económico, antes de ser económico, é homem, estaremos a repetir uma ideia feita, mas proferiremos também uma verdade que raras vezes é inteiramente compreendida. A ruína das civilizações não foi nunca alheia às crises da economia, porque a vida humana não pode ser alheia ao labor de produção que a sustenta. Mas é difícil recalcitrar com a dialéctica atraente de Gibbon quando argumenta que o carrasco da altiva civilização Romana foi o individualismo frustre que se substituiu ao espírito cívico e ao comedimento natural das virtudes e evitar generalizar a conclusão para todos os grandes desastres protagonizados pela raça humana.

No centro deste abatimento do espírito dos povos situam-se problemas que parecem pequenos aos insignificantes que governam os Estados, como o intricado problema constituído por aquele agregado humano elementar a que chamamos família. As propostas do Partido Socialista em relação ao aborto voluntário, à transmissão artificial da vida humana e ao estatuto de adopção de crianças privadas por este ou aquele motivo da sua família natural inquietam-me mil vezes mais do que o estado certamente desastroso das contas públicas nacionais no final de um mandato da Esquerda. As contas públicas sempre podem ser emendadas, depois de maiores ou menores dificuldades; mas um naufrágio não pode ser revertido. 

Os princípios mentais que explicam o presente naufrágio já assentaram as suas raízes há bastante tempo, talvez há bastante mais tempo do que a maior parte das pessoas possa pensar. O que já não se explica tão prontamente é o silêncio circunspecto dos conservadores, que, se quisermos crer no testemunho de Russell Kirk, deveriam acreditar numa ordem moral duradoira, mesmo eterna, que urge preservar para que se perpetuem também os benefícios da liberdade de coerção estatal e da propriedade a que presentemente tendem a conferir mais ênfase. É claro que mais vale permanecer calado do que repetir as inconsistentes e pouco informadas intervenções de alguns deputados da ala direita do Parlamento – assim chamada – nos debates que antecederam as grandes mudanças jurídicas do estatuto da família nos últimos anos. Em geral, descontando outras imbecilidades, esses deputados limitaram-se a cometer o erro de dizer que não eram aquelas as suas prioridades, que o Parlamento devia era falar de contas. Sempre as malditas contas. Entretanto, à sombra da aritmética, aquelas prioridades triunfavam, sacudindo todo o edifício social pela base. O que nos deixa onde começámos.

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