sexta-feira, 12 de junho de 2015

Sobre o homem que apareceu na capa da revista Vanity Fair

Não se lê com frequência comentários corajosos a casos como o de Bruce Jenner, um transgénero que muito recentemente fez a capa da revista Vanity Fair. Falo em coragem, porque é necessária certa coragem para opinar o contrário do que uma maioria vociferante julga e propaga sobre assuntos como este. Ainda mais é assim quanto esta maioria reage geralmente à oposição que se faz às suas ideias com uma verve virulenta que não poupa o adversário a nenhuma das categorias execráveis em que se pode arrumar convenientemente um sujeito. Este fenómeno, que não sei se foi pensado como táctica, tem produzido um efeito eficacíssimo, porque as opiniões contrárias silenciaram-se quase completamente, como um fogo que se retrai até não restar dele mais do que cinza.

Bruce Jenner é um homem. Mudou de nome, é sabido. Diz agora que se chama Caitlyn, e há quem aceite chamá-lo por esse nome. É evidente que se submeteu a uma cirurgia cosmética para se parecer com uma mulher. Porém, nenhum destes subterfúgios fez dele uma mulher. Na verdade, em Jenner a sua masculinidade é ainda aparente, porque não realizou qualquer operação de remoção da genitália masculina, e, segundo o que declarou, não sabe se a quer realizar. Mas ainda que o fizesse, a sua masculinidade está de tal maneira entranhada no seu ser que nada poderia realizar aquela transformação. Se se quiser considerar a questão apenas do ponto de vista das ciências biológicas, já assim sabemos que Jenner continuará para sempre a portar nos seus genes os cromossomas masculinos que são o factor biológico determinante da distinção dos sexos. Para um dia deixar de ser um homem, Jenner, provavelmente, teria que se aniquilar; teria que deixar pura e simplesmente de ser. 

A única resposta que se tem oferecido como objecção a esta constatação é a de que o corpo não tem qualquer importância para determinar o que é um homem ou uma mulher. É este princípio que justifica a difundida distinção entre sexo e género. Para os que assim distinguem, o sexo é o conjunto dos caracteres sexuais corpóreos, e sob este aspecto pode possuir-se um sistema reprodutor feminino ou masculino. O género é uma categoria comportamental socialmente construída em que se pode assumir o papel de homem ou de mulher. Ora, para os que assim razoam, o sexo não determina o género. Pode-se ter cromossomas femininos e um sistema reprodutor feminino e ser um homem e pode-se ter cromossomas masculinos e um sistema reprodutor condizente e ser uma mulher. Os teóricos do género concluem, então, que pertence a cada um assumir o papel de mulher ou de homem, ou mesmo – porque não? - um género neutro ou misto, conforme aos seus sentimentos e à íntima percepção que tiver de si mesmo. O corpo, e mais particularmente o sexo, deixaram de ser um elemento constitutivo da identidade da pessoa. Para elaborar esta teoria torna-se necessário, pois, rasgar a unidade fundamental do ser humano e recair no dualismo. O ser humano já não é vontade e corpo, mas principalmente vontade, à qual se ampara um corpo. 

Esta ideia não é nova. Na verdade, é muito velha. O gnosticismo de todos os tempos também corta o ser humano em dois, corpo e alma; a alma é boa, o corpo é mau. Diziam os gnósticos que o corpo não faz verdadeiramente parte do eu; a alma é que é o eu, e, para ela, o corpo é bem mais uma prisão. Olhada a questão desta perspectiva, os cátaros do século doze foram notáveis teóricos do género. Como só conferiam valor à centelha imaterial do espírito, e não ao nosso rude revestimento de carne, não distinguiam entre homens e mulheres. Assim, é possível ver que também neste assunto, como frequentemente acontece em outros, as ideias que julgamos progressistas são a repetição de ideias antiquadas.

Todo o edifício da teoria do género só se mantém enquanto se sustiver o alicerce da separação entre vontade e corpo. Mas, uma vez rejeitada como falsa esta separação e derruído o alicerce, toda a construção se desfaz em uma nuvem de poeira. 

A unidade do ser humano, composto de alma e corpo, é um dado imediato da consciência. Aquilo que o corpo sente e faz são paixões e acções do mesmo sujeito que opera com a inteligência e a vontade. A ciência contemporânea corrobora vigorosamente esta unidade, mesmo quanto aos nossos pensamentos e decisões, que, por serem acompanhados de fenómenos orgânicos empiricamente verificáveis, sugerem a alguns a falsa consequência de que o homem não é senão corpo. Por outro lado, é bem conhecida, e pode facilmente descobrir-se na experiência comum, a influência que os factos orgânicos exercem sobre as operações intelectuais.

Quando se olha o ser humano na sua inteireza, revela-se-nos a sua profunda unidade da vontade e do corpo. Enquanto é vontade, o ser humano participa da indeterminação própria da imaterialidade, porque a vontade é um poder de por si mesmo se determinar a proceder desta ou daquela maneira. Enquanto é corpo, o ser humano participa da determinação própria da matéria, que encerra os corpos em distinções e lhes assinala certas operações naturais.

O caso de Bruce Jenner é uma questão de identidade. Neste ponto, parece que todos concordamos. Mas não é uma afirmação de identidade, como muitas vezes se diz – é uma negação de identidade.

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