sábado, 27 de junho de 2015

Publicação dramaticamente reaccionária. Chega a invocar-se a natureza.

Tornaram a escorrer da pena da deputada Isabel Moreira algumas considerações sobre o tema da natureza. O assunto entra na predilecção da autora. Ainda nem há dois anos publicou um artigo na nossa imprensa cunhado com o título Antinatural, felizmente. Já o novo texto tem o título É bom porque não é natural.

Isabel Moreira dispõe de muitas horas nos televisores e de muitas páginas na nossa imprensa escrita, o que lhe vale certa influência política. Como emprega argumentos para tentar defender os seus preconceitos, é até justo dizer que é uma intelectual de esquerda. Apenas esta conjuntura acidental desculpa quem lhe dirija uma resposta séria. Se o estrago que provoca é público, remediá-lo, ainda que apenas em parte, é serviço público.

O nome natureza tem plúrimos sentidos. Isabel Moreira não os destrinça, e, como inevitável consequência, confunde-os. Há a distinguir no vocábulo natureza pelo menos dois sentidos:

(1) Natureza enquanto se contrapõe a artefacto, assim como se contrapõe natural a artificial, e neste sentido se diz que a madeira é natural, mas a cadeira é artificial, e neste sentido também as construções tecnológicas e culturais se opõem ao estado de natureza;

(2) Natureza enquanto ordenação de uma coisa aos seus fins, assim como se diz que é natural que o homem veja e não é natural que o ser humano não veja, como, por exemplo, se sofrer de um defeito da vista.

Ora, estes dois sentidos da palavra natureza são diferentes o bastante para que todo o discurso da deputada se equivoque e se enleie em conclusões inválidas.

Todo o artefacto, por sua definição, não é natural, porque não é produzido imediatamente pela natureza, mas somente pelo labor humano. Porém, o artefacto é natural no ser humano. Resultaria deste arrazoado um paradoxo, não se houvesse já distinguido dois sentidos possíveis dos vocábulos natureza e natural. No segundo desses sentidos, o fabrico e o uso de artefactos são naturais ao ser humano, porque são a expressão da sua capacidade de ordenar meios aos fins.

Serve sempre a pedagogia considerar um exemplo. Um par de óculos não se encontra na natureza, como se encontram água ou maçãs. Na verdade, até que alguém a quem muito estimo os inventasse, a humanidade não se pôde servir desse magnífico instrumento. É justo dizer que um par de óculos não é natural, mas artificial. Mas não é justo dizer que o uso de óculos é contra a natureza considerada enquanto fim. Na verdade, o seu uso é totalmente conforme à natureza humana, uma vez que auxilia o exercício da visão, quando, por algum motivo, esta se encontra diminuída no seu funcionamento.

Isabel Moreira começa o seu argumento com a premissa de que é bom o progresso porque nos afasta da natureza. É evidente que fala nesse lugar da natureza enquanto esta se contrapõe àquilo que é produzido pelo ser humano, como, aliás, se infere da afirmação de que a doutrina dos que a invocam, se levada ao máximo de consistência, «teria de ter a honestidade de fazer a apologia da nudez, sem direito à parra do jardim do Éden». E posta a premissa, conclui de imediato contra a natureza que, por exemplo, são coisas boas a procriação medicamente assistida e o aborto.

Para deparar com a falácia do raciocínio, faça-se como os escolásticos: distinga-se e contradistinga-se. Deslinde-se o duplo significado do nome natureza e do adjectivo natural na premissa maior e descubra-se que o argumento, ainda que provasse num sentido, não o provaria noutro. Mas só este outro é que é tem algum interesse para os adversários da aclamada romancista de “Apátrida”.

E confutada a sofista, mais não digo, que não sou nenhum António Araújo.

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