quarta-feira, 3 de junho de 2015

A importância da velha ortografia

Já se apresentaram muitos argumentos espúrios para justificar a bondade do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Alguns desses simulacros de raciocínio foram produzidos por académicos que, sem nenhum olhar crítico sobre a questão, se limitam a repetir o que os outros disseram, mas como se fosse uma evidência adquirida por meios próprios, proferida da altura da cátedra em tom de severidade e repreensão.

Um dos argumentos utilizados por um desses fantoches da cena académica é o de que o Acordo é tão mais necessário quanto existe uma disparidade evidente e inútil entre a grafia e a fonia da língua, ou seja, entre a forma como as palavras se escrevem e a forma como são pronunciadas. E parece que, esgotando-se toda a linguagem no vaivém entre estas duas operações de falar e escrever, a grafia antiga é uma extravagância não justificada, e é imenso o número de palavras em que se intrometem letras e acentos supérfluos.

O que este ilustre ignorante não recorda na dicotomia que faz é a operação mista da língua a que chamamos leitura. É uma operação mista, porque tem o seu fundamento na língua escrita e o seu acabamento na língua falada que a pronuncia. Ora, eu não sou um especialista na língua portuguesa – mas, creio, também, que não é necessário sê-lo para perceber a importância da grafia para a operação de leitura. Se não existisse mais do que o escrever e o falar, talvez o argumento tivesse valor; mas, existe também o ler, por isso, o argumento não vale nada.

As palavras escritas são silenciosas. Não conhecemos através delas, quando as conhecemos, a sua pronúncia, e pode bem dar-se o caso de que não consigamos associar uma palavra escrita à palavra falada que lhe corresponde. Ora, quando se lê, as aparentes extravagâncias da grafia antiga em muitas palavras ajudam a discernir a palavra falada que lhes corresponde, porque indicam a pronúncia correcta daquele sinal escrito. Têm assim uma dupla importância: indicam o sentido certo da palavra usada e indicam a maneira correcta de a pronunciar.

Numa cultura tão dependente da palavra escrita e da leitura como é a nossa, e em que a aprendizagem se faz também sobretudo pela leitura, dentro de algumas décadas a pronúncia do português estará totalmente corrompida. E os nossos políticos, e a nossa geração, serão culpados pela degradação do património linguístico português, elemento de extraordinária importância da nossa identidade nacional.

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