sexta-feira, 12 de junho de 2015

Ateísmo Inconsciente

O ateu que milita pelo seu ateísmo, que o propagandeia, que o exibe com as mais vivas cores a fim de angariar simpatizantes para o seu partido, é espécime recente sobre a terra.

O barão de Holbach foi o primeiro ateu de notoriedade pública que não se armou com desculpas e não se velou de eufemismos. A sua crítica zurziu, violentíssima, a religião cristã. Deus era uma quimera dos teólogos. A religião era um negócio da padralhada. Ao Cristo, crucificava-o de novo no madeiro da razão iluminada. Escreveu ao carpinteiro de Nazaré uma história crítica em que blasfemam os olhos só de a ler. A todo o motejo sobre a divindade pôs o nome de Bom Senso quando o estampou em livro. Acabou arquitectando um intrincado sistema da natureza que justificava com argumentos a conclusão que deles não necessitara. O britânico Hume não ousou tanto como o francês – dissimulou-se nas espáduas de Philo no curso dos seus diálogos sobre religião natural.

Volvidos mais de dois séculos, volve também a acrimónia à língua dos incréus. Hoje, formam clubes, publicam livros, editam jornais, reúnem-se em convenções. Carregam consigo a herança do positivismo de Comte e Haeckel e da teofobia marxista. Falam principalmente pela boca de cinco ou seis mestres, como um Dawkins, um Harris, um Dennett, um Krauss. Como Holbach, uns séculos antes, reclamam-se guardiões do bom senso e da razoabilidade.

Há uns anos, um de entre eles, Harris, fez imprimir um Manifesto Ateu. Uma leitura rápida do documento depara repetidas vezes com os adjectivos «evidente», «óbvio» e «racional» seguindo a formulação das teses do ateísmo. O ateísmo é evidente, o materialismo é óbvio, apostatar da religião é racional. 

Que tamanhas evidências se tenham subtraído à maior parte da humanidade durante a maior parte da sua história é uma bizarria que só se explica pela influência opressora dos padres e prosélitos na comunidade, sempre instilando a crendice, sempre inflamando a superstição, sempre atiçando em ameaças o fogo do inferno.

O nosso Teixeira Bastos, destacado membro da camarilha positivista e republicana portuguesa de finais do século dezanove, levou à prensa em um dos números da Revista de Estudos Livres, dirigida por Teófilo Braga, um artigo de título «Atheismo Inconsciente», querendo provar essa mesma tese por aquela outra de que o ateísmo era um fenómeno generalizado nas populações primitivas da África, da América e da Oceânia. A religião que ali havia chegara com a varíola transportada nos barcos dos europeus. 

O «ateísmo inconsciente» dos primitivos foi mito derrubado sem demora por estudos mais convincentes do que os de Letorneau e de outros escrevinhadores ainda mais obscuros de que Teixeira Bastos se serve. Avulta entre aqueles primeiros o de Monsenhor Alexander Le Roy, que não tomou observações alheias para escrever sobre a questão, mas pelos seus próprios meios verificou os costumes das populações da Ásia e da África. Nunca encontrou ele colectividades sem algum tipo de rito religioso e pôde haurir dos múltiplos exemplos de sociedades nativas que observou um inventário de crenças religiosas comuns a todos esses povos. 

Nada disto prova um til ou um jota sobre a existência de Deus. O que fica provado é o disparate de afirmar que o ateísmo é evidente. Não o é para a grande parte da humanidade, da mesma maneira que o são, por exemplo, as regras da matemática ou as leis da lógica formal. Pelo contrário, parece existir uma razão comum para que a crença na divindade se nos revele tão universalmente disseminada no tempo e no espaço. Se esse factor incógnito é racional ou irracional, biológico ou espiritual, não gosto de o afirmar sem mais, mas é, certamente, transcendente às particulares culturas em que um ser humano se insere. Demais, identificar o ateísmo com uma evidência ou com a razão é apenas uma maneira de deixar a pergunta indiscutida e de responder sem antes ter perguntado.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A importância da velha ortografia

Já se apresentaram muitos argumentos espúrios para justificar a bondade do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Alguns desses simulacros de raciocínio foram produzidos por académicos que, sem nenhum olhar crítico sobre a questão, se limitam a repetir o que os outros disseram, mas como se fosse uma evidência adquirida por meios próprios, proferida da altura da cátedra em tom de severidade e repreensão.

Um dos argumentos utilizados por um desses fantoches da cena académica é o de que o Acordo é tão mais necessário quanto existe uma disparidade evidente e inútil entre a grafia e a fonia da língua, ou seja, entre a forma como as palavras se escrevem e a forma como são pronunciadas. E parece que, esgotando-se toda a linguagem no vaivém entre estas duas operações de falar e escrever, a grafia antiga é uma extravagância não justificada, e é imenso o número de palavras em que se intrometem letras e acentos supérfluos.

O que este ilustre ignorante não recorda na dicotomia que faz é a operação mista da língua a que chamamos leitura. É uma operação mista, porque tem o seu fundamento na língua escrita e o seu acabamento na língua falada que a pronuncia. Ora, eu não sou um especialista na língua portuguesa – mas, creio, também, que não é necessário sê-lo para perceber a importância da grafia para a operação de leitura. Se não existisse mais do que o escrever e o falar, talvez o argumento tivesse valor; mas, existe também o ler, por isso, o argumento não vale nada.

As palavras escritas são silenciosas. Não conhecemos através delas, quando as conhecemos, a sua pronúncia, e pode bem dar-se o caso de que não consigamos associar uma palavra escrita à palavra falada que lhe corresponde. Ora, quando se lê, as aparentes extravagâncias da grafia antiga em muitas palavras ajudam a discernir a palavra falada que lhes corresponde, porque indicam a pronúncia correcta daquele sinal escrito. Têm assim uma dupla importância: indicam o sentido certo da palavra usada e indicam a maneira correcta de a pronunciar.

Numa cultura tão dependente da palavra escrita e da leitura como é a nossa, e em que a aprendizagem se faz também sobretudo pela leitura, dentro de algumas décadas a pronúncia do português estará totalmente corrompida. E os nossos políticos, e a nossa geração, serão culpados pela degradação do património linguístico português, elemento de extraordinária importância da nossa identidade nacional.