terça-feira, 30 de junho de 2015

Deparo-me com um ateu...

Deparo-me com comentários de um ateu numa das caixas de comentários da internet e sempre espero ler uma demonstração decisiva de que não existe Deus. Nunca a li. O mais que fazem é esboçar uma ténue comparação entre Deus e as divindades dos Antigos, seja Rá, seja Zeus, ou qualquer outra entidade mitológica, o que apenas prova que, na maior parte dos casos, o ateu nem mesmo tem um conceito uno do que seja Deus, ou não O compararia a personagens que mais não são do que humanos de atributos extraordinários. 

A razão decisiva do ateu que mais recentemente li reduz-se a um "Eu nunca vi Deus"; portanto, Deus não existe, ou pelo menos, não há razões para acreditar que Ele exista. Há que perguntar-lhe se ele mesmo não se faz uma espécie de deus quando determina que, porque no seu limitado espectro de visão, enquanto vive perdido num dos inúmeros planetas que existem neste universo, confinado a uma pequena porção dele, se não vê uma coisa, ela não existe. Se o astrónomo que viu Neptuno pela primeira vez partilhasse da mesma filosofia, também proclamaria tê-lo criado quando o olhou pelo telescópio. 

E, é claro, embora pareça pela experiência comum que é necessário que cada ser humano tenha naturalmente pais, e, portanto, tenha também avós, bisavós e tetravós, só porque alguém nunca viu os seus avós, bisavós e tetravós, estaria autorizado, se pertencesse à mesma escola de pensamento deste ateu, a declarar que não os tem ou que não vê razão para acreditar que os tem. 

Seria, certamente, um caso de interesse para a ciência; talvez, quem sabe, a confirmação da teoria da geração espontânea, a do rapaz ou a dos seus pais.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Livros que salvam: Egalitarianism as a Revolt Against Nature

O norte-americano Murray Rothbard pensa fora das categorias clássicas. O alicerce sobre que constrói intelectualmente é a praxeologia de Ludwig von Mises. Não há na sua escrita vestígios do estudo da tradição antiga de sabedoria sobre a lei natural. No entanto, encaminha-se à verdade daquela sabedoria por vereda própria.

O seu ensaio Egalitarianism As a Revolt Against Nature é uma crítica exacta e límpida do igualitarismo. Essa meia dúzia de páginas capta perfeitamente a essência do pensamento igualitário como uma revolta contra a estrutura da realidade. O escrito data do ano de 1974, mas a sua novidade permanece incorrupta, como se houvesse ainda neste instante saído das mãos do seu autor.

Rothbard fundeia águas mais profundas do que o liberal simplório e não se ludibria com o igualitarismo encapado de liberdade. Confronta-nos cortante e fluido, quase com rudeza. Neste tempo que é o nosso, é uma janela aberta a deixar entrar ar fresco. É da espécie de livros que nos salva de embrutecermos a bater o rasto da carneirada.

sábado, 27 de junho de 2015

Publicação dramaticamente reaccionária. Chega a invocar-se a natureza.

Tornaram a escorrer da pena da deputada Isabel Moreira algumas considerações sobre o tema da natureza. O assunto entra na predilecção da autora. Ainda nem há dois anos publicou um artigo na nossa imprensa cunhado com o título Antinatural, felizmente. Já o novo texto tem o título É bom porque não é natural.

Isabel Moreira dispõe de muitas horas nos televisores e de muitas páginas na nossa imprensa escrita, o que lhe vale certa influência política. Como emprega argumentos para tentar defender os seus preconceitos, é até justo dizer que é uma intelectual de esquerda. Apenas esta conjuntura acidental desculpa quem lhe dirija uma resposta séria. Se o estrago que provoca é público, remediá-lo, ainda que apenas em parte, é serviço público.

O nome natureza tem plúrimos sentidos. Isabel Moreira não os destrinça, e, como inevitável consequência, confunde-os. Há a distinguir no vocábulo natureza pelo menos dois sentidos:

(1) Natureza enquanto se contrapõe a artefacto, assim como se contrapõe natural a artificial, e neste sentido se diz que a madeira é natural, mas a cadeira é artificial, e neste sentido também as construções tecnológicas e culturais se opõem ao estado de natureza;

(2) Natureza enquanto ordenação de uma coisa aos seus fins, assim como se diz que é natural que o homem veja e não é natural que o ser humano não veja, como, por exemplo, se sofrer de um defeito da vista.

Ora, estes dois sentidos da palavra natureza são diferentes o bastante para que todo o discurso da deputada se equivoque e se enleie em conclusões inválidas.

Todo o artefacto, por sua definição, não é natural, porque não é produzido imediatamente pela natureza, mas somente pelo labor humano. Porém, o artefacto é natural no ser humano. Resultaria deste arrazoado um paradoxo, não se houvesse já distinguido dois sentidos possíveis dos vocábulos natureza e natural. No segundo desses sentidos, o fabrico e o uso de artefactos são naturais ao ser humano, porque são a expressão da sua capacidade de ordenar meios aos fins.

Serve sempre a pedagogia considerar um exemplo. Um par de óculos não se encontra na natureza, como se encontram água ou maçãs. Na verdade, até que alguém a quem muito estimo os inventasse, a humanidade não se pôde servir desse magnífico instrumento. É justo dizer que um par de óculos não é natural, mas artificial. Mas não é justo dizer que o uso de óculos é contra a natureza considerada enquanto fim. Na verdade, o seu uso é totalmente conforme à natureza humana, uma vez que auxilia o exercício da visão, quando, por algum motivo, esta se encontra diminuída no seu funcionamento.

Isabel Moreira começa o seu argumento com a premissa de que é bom o progresso porque nos afasta da natureza. É evidente que fala nesse lugar da natureza enquanto esta se contrapõe àquilo que é produzido pelo ser humano, como, aliás, se infere da afirmação de que a doutrina dos que a invocam, se levada ao máximo de consistência, «teria de ter a honestidade de fazer a apologia da nudez, sem direito à parra do jardim do Éden». E posta a premissa, conclui de imediato contra a natureza que, por exemplo, são coisas boas a procriação medicamente assistida e o aborto.

Para deparar com a falácia do raciocínio, faça-se como os escolásticos: distinga-se e contradistinga-se. Deslinde-se o duplo significado do nome natureza e do adjectivo natural na premissa maior e descubra-se que o argumento, ainda que provasse num sentido, não o provaria noutro. Mas só este outro é que é tem algum interesse para os adversários da aclamada romancista de “Apátrida”.

E confutada a sofista, mais não digo, que não sou nenhum António Araújo.

A hora da sem-razão

Sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal dos Estados Unidos de legalizar a união civil entre duas pessoas do mesmo sexo em todos os Estados federados, consigno-vos por escrito algumas considerações, que certamente são consensuais.

A primeira consideração é que a questão da união civil entre pessoas do mesmo sexo não é verdadeiramente uma questão de igualdade no acesso ao casamento. Ao contrário do que entretanto insinuou o Presidente dos Estados Unidos em exercício, muito tempo antes desta decisão judicial já existia naquele país a possibilidade de homossexuais se casarem e não há notícia de essa liberdade lhes ter sido negada. Nenhum homem ou mulher havia, independentemente de outras qualidades particulares, que não pudesse consorciar-se naquela união de homem e mulher que unicamente constitui o casamento. O que não havia e passou a haver é um novo direito, no âmbito de uma nova criação jurídica, que enganadoramente também se chamará de casamento, e que permitirá que duas pessoas do mesmo sexo se unam civilmente. Não havia, portanto, um problema de discriminação no acesso ao casamento, ao contrário do que muitos nos quererão fazer crer, o que, aliás, é algo que se pode dizer de todos os países em que a questão foi levantada.

A segunda consideração é que a união civil de pessoas do mesmo sexo se coaduna perfeitamente com uma época em que o horizonte moral está apenas confinado pelos limites orgânicos do prazer e da dor. O hedonismo é necessariamente um individualismo, enquanto que o casamento, onde verdadeiramente o é, não é nunca associal. Por isso, o Estado o cristalizou e guardou com as suas leis: porque era o único lugar salubre para o nascimento e educação das gerações humanas, a fonte da perpétua renovação e crescimento social. Hoje, foi descaracterizado na sua veste jurídica: é agora apenas o instrumento de uma ideologia para varrer a cultura e substituí-la por uma homogeneização maligna, que é produto do ódio à distinção e à ordem do mundo da qual aquela é o primeiro elemento.

A terceira consideração é que a realização da agenda de reivindicações do movimento homossexual está intrinsecamente ligada à sempre crescente intromissão da coerção estatal na esfera das comunidades menores e dos indivíduos. O caso dos Estados Unidos é, a partir de hoje, um caso de escola. O Supremo Tribunal desconsiderou a autonomia de todos os Estados federados e retirou aos seus órgãos legislativos e ao seu povo o direito de estabelecer para si mesmos as regras do seu direito da família. Não tardará a que novamente se accione o mecanismo de coerção legislativa, executiva e judicial para instaurar aquela igualdade radical pretendida pelos activistas homossexuais. A questão do casamento e da família toca todos os aspectos da vida de uma pessoa e em todos eles o Estado ocupará um lugar para garantir a existência dessa homogeneidade que não existe hoje, e que se não fosse a acção do aparelho estatal, nem sequer se poderia tentar instaurar. Os que julgam que defendem a liberdade com o poder do Estado, defendem uma liberdade que a si mesmo se devora. 

domingo, 21 de junho de 2015

Resposta a perguntas de leitor sobre causalidade e a eternidade do mundo

Chegaram-me de um amável leitor algumas questões sobre filosofia, que respeitam particularmente aos temas da subordinação de causas eficientes e à eternidade do mundo e à doutrina de Tomás de Aquino sobre estes pontos. Dividi as questões em três perguntas.

Primeira: em que sentido é que São Tomás afirma que uma série de causas subordinadas, ou seja, em que cada uma das causas da série é causada pela anterior, não pode ser infinita?

Segunda: será compatível a afirmação de que uma série de causas causadas não pode ser infinita com a afirmação de Tomás de que é possível que o mundo exista há um tempo infinito?

Terceira: pode uma série de causas causadas circular ser infinita?

Seguirei a ordem das perguntas na resposta.

1. Em que sentido é que uma série de causas causadas não pode ser infinita?


São Tomás afirma que é impossível existir uma série infinita de causas subordinadas. No entanto, São Tomás distingue entre dois tipos de séries de causas subordinadas:

a) Causas acidentalmente subordinadas;

b) Causas essencialmente subordinadas.

A série de causas acidentalmente subordinadas é aquela em que o efeito não depende actualmente da causa para continuar a existir e a agir. Um exemplo desta série de causas subordinadas é a série das gerações humanas. O filho não depende actualmente dos pais para existir ou agir depois do nascimento.

A série de causas essencialmente subordinadas é aquela em que o efeito depende actualmente da causa para continuar a existir e a agir. Um exemplo, quanto à existência, é o dos animais, que dependem a cada momento do influxo de múltiplas causas para existir, como, por exemplo, da actividade das suas células, que, por sua vez, depende de outras causas. Um exemplo, quanto à acção, é o da serra que apenas se move pela mão do marceneiro, e que, quando cessa o movimento da mão, cessa também de serrar.

O que Tomás de Aquino afirma em vários lugares é que é impossível existir uma série infinita de causas essencialmente subordinadas, porque se cada uma das causas apenas existe e age por influxo de todas as causas anteriores, mas nenhuma houvesse que tivesse por si a existência ou o poder de causar, nada existiria e nada seria causado.

Diferentemente, Tomás de Aquino não nega a possibilidade de existir uma série infinita de causas acidentalmente subordinadas. Nos lugares em que examina a questão da eternidade do mundo, como, por exemplo, no breve opúsculo Da eternidade do mundo contra os murmurantes, ou na Suma Contra o Gentios (Livro II, capítulos 31 a 38), Aquino debate-se com o argumento da impossibilidade de uma série de causas acidentalmente subordinadas aduzido para provar a impossibilidade da eternidade do mundo, e rejeita-o como falacioso. Assim, não encontra nenhuma contradição na existência uma série infinita de gerações humanas, nem pensa que se possa resolver definitivamente a questão de saber se nasceu primeiro a galinha ou o ovo, porque esta série galinácea, como toda a série de causas acidentalmente subordinadas, poderia ser infinita.


2. Será compatível a afirmação de que uma série de causas causadas não pode ser infinita com a afirmação de Tomás de que é possível que o mundo exista há um tempo infinito?


A série de causas essencialmente subordinadas implica a simultaneidade do exercício da causalidade por cada uma delas. A consideração do tempo é irrelevante para este caso, e, por isso, a possibilidade de um mundo eterno em nada contradiz a existência de uma série deste tipo. 

No entanto, foram muitos os que tentaram provar que o mundo não é eterno afirmando a impossibilidade de uma série de causas acidentalmente subordinadas. Um mundo que sempre tenha existido parece implicar necessariamente uma série infinita de causas essencialmente subordinadas. Tomás de Aquino propõe alguns exemplos de séries deste tipo que existiriam num mundo eterno, como seria o número infinito de dias passados ou de rotações do sol. Se alguma destas séries fosse infinita, não se poderia transcorrer e nunca chegaríamos a um último termo, como a este dia na série dos dias ou à actual rotação do sol na série de rotações do sol.

Aquino recusou validade a esse argumento, observando muito justamente que a infinitude da série não se realiza simultaneamente, mas sucessivamente. Pode ser que o mundo não tenha tido um primeiro dia, que o número de dias passados seja infinito, mas isso dá-se por partes finitas, e, assim, o infinito pode ser percorrido. A imaginação intromete-se nos caminhos do pensamento e inclina-nos a assimilar o tempo ao espaço, imaginando-o como uma linha contínua. Mas, na verdade, as partes do tempo não nos são todas dadas em simultâneo, como no espaço, mas em sucessão.

A razão mais profunda pela qual não é possível provar de maneira necessária alguma proposição sobre o começo ou a eternidade de qualquer ente é que a consideração da essência de uma coisa prescinde da temporalidade. A essência de um ente, exprimida pela definição, pode ser tomada como princípio de prova em um silogismo para concluir necessariamente uma proposição sobre a coisa. Porém, a essência de uma coisa, enquanto tal, é imutável e exprime sempre uma possibilidade de existir, não implicando considerações temporais.

3. Pode uma série de causas causadas circular ser infinita?


Tendemos a imaginar a série de causas subordinadas como uma sucessão de objectos em linha recta. Mas tentemos imaginá-la como um círculo, em que A é a causa de B e B é causa de A.

É possível existir deste modo uma série infinita de causas essencialmente subordinadas?

A esta hipótese responde-se que o círculo de causas envolve uma contradição, porque se uma coisa é produzida por outra que foi feita por ela, produz-se a si mesma; portanto teria que existir antes de existir, porque só opera aquilo que existe. 

Por conseguinte, qualquer série circular de causas nunca pode encerrar a origem da causalidade, mas apenas pode ser uma cadeia de transmissão da causalidade; pelo que estará dependente de uma causa fora da série.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Ateísmo Inconsciente

O ateu que milita pelo seu ateísmo, que o propagandeia, que o exibe com as mais vivas cores a fim de angariar simpatizantes para o seu partido, é espécime recente sobre a terra.

O barão de Holbach foi o primeiro ateu de notoriedade pública que não se armou com desculpas e não se velou de eufemismos. A sua crítica zurziu, violentíssima, a religião cristã. Deus era uma quimera dos teólogos. A religião era um negócio da padralhada. Ao Cristo, crucificava-o de novo no madeiro da razão iluminada. Escreveu ao carpinteiro de Nazaré uma história crítica em que blasfemam os olhos só de a ler. A todo o motejo sobre a divindade pôs o nome de Bom Senso quando o estampou em livro. Acabou arquitectando um intrincado sistema da natureza que justificava com argumentos a conclusão que deles não necessitara. O britânico Hume não ousou tanto como o francês – dissimulou-se nas espáduas de Philo no curso dos seus diálogos sobre religião natural.

Volvidos mais de dois séculos, volve também a acrimónia à língua dos incréus. Hoje, formam clubes, publicam livros, editam jornais, reúnem-se em convenções. Carregam consigo a herança do positivismo de Comte e Haeckel e da teofobia marxista. Falam principalmente pela boca de cinco ou seis mestres, como um Dawkins, um Harris, um Dennett, um Krauss. Como Holbach, uns séculos antes, reclamam-se guardiões do bom senso e da razoabilidade.

Há uns anos, um de entre eles, Harris, fez imprimir um Manifesto Ateu. Uma leitura rápida do documento depara repetidas vezes com os adjectivos «evidente», «óbvio» e «racional» seguindo a formulação das teses do ateísmo. O ateísmo é evidente, o materialismo é óbvio, apostatar da religião é racional. 

Que tamanhas evidências se tenham subtraído à maior parte da humanidade durante a maior parte da sua história é uma bizarria que só se explica pela influência opressora dos padres e prosélitos na comunidade, sempre instilando a crendice, sempre inflamando a superstição, sempre atiçando em ameaças o fogo do inferno.

O nosso Teixeira Bastos, destacado membro da camarilha positivista e republicana portuguesa de finais do século dezanove, levou à prensa em um dos números da Revista de Estudos Livres, dirigida por Teófilo Braga, um artigo de título «Atheismo Inconsciente», querendo provar essa mesma tese por aquela outra de que o ateísmo era um fenómeno generalizado nas populações primitivas da África, da América e da Oceânia. A religião que ali havia chegara com a varíola transportada nos barcos dos europeus. 

O «ateísmo inconsciente» dos primitivos foi mito derrubado sem demora por estudos mais convincentes do que os de Letorneau e de outros escrevinhadores ainda mais obscuros de que Teixeira Bastos se serve. Avulta entre aqueles primeiros o de Monsenhor Alexander Le Roy, que não tomou observações alheias para escrever sobre a questão, mas pelos seus próprios meios verificou os costumes das populações da Ásia e da África. Nunca encontrou ele colectividades sem algum tipo de rito religioso e pôde haurir dos múltiplos exemplos de sociedades nativas que observou um inventário de crenças religiosas comuns a todos esses povos. 

Nada disto prova um til ou um jota sobre a existência de Deus. O que fica provado é o disparate de afirmar que o ateísmo é evidente. Não o é para a grande parte da humanidade, da mesma maneira que o são, por exemplo, as regras da matemática ou as leis da lógica formal. Pelo contrário, parece existir uma razão comum para que a crença na divindade se nos revele tão universalmente disseminada no tempo e no espaço. Se esse factor incógnito é racional ou irracional, biológico ou espiritual, não gosto de o afirmar sem mais, mas é, certamente, transcendente às particulares culturas em que um ser humano se insere. Demais, identificar o ateísmo com uma evidência ou com a razão é apenas uma maneira de deixar a pergunta indiscutida e de responder sem antes ter perguntado.

Sobre o homem que apareceu na capa da revista Vanity Fair

Não se lê com frequência comentários corajosos a casos como o de Bruce Jenner, um transgénero que muito recentemente fez a capa da revista Vanity Fair. Falo em coragem, porque é necessária certa coragem para opinar o contrário do que uma maioria vociferante julga e propaga sobre assuntos como este. Ainda mais é assim quanto esta maioria reage geralmente à oposição que se faz às suas ideias com uma verve virulenta que não poupa o adversário a nenhuma das categorias execráveis em que se pode arrumar convenientemente um sujeito. Este fenómeno, que não sei se foi pensado como táctica, tem produzido um efeito eficacíssimo, porque as opiniões contrárias silenciaram-se quase completamente, como um fogo que se retrai até não restar dele mais do que cinza.

Bruce Jenner é um homem. Mudou de nome, é sabido. Diz agora que se chama Caitlyn, e há quem aceite chamá-lo por esse nome. É evidente que se submeteu a uma cirurgia cosmética para se parecer com uma mulher. Porém, nenhum destes subterfúgios fez dele uma mulher. Na verdade, em Jenner a sua masculinidade é ainda aparente, porque não realizou qualquer operação de remoção da genitália masculina, e, segundo o que declarou, não sabe se a quer realizar. Mas ainda que o fizesse, a sua masculinidade está de tal maneira entranhada no seu ser que nada poderia realizar aquela transformação. Se se quiser considerar a questão apenas do ponto de vista das ciências biológicas, já assim sabemos que Jenner continuará para sempre a portar nos seus genes os cromossomas masculinos que são o factor biológico determinante da distinção dos sexos. Para um dia deixar de ser um homem, Jenner, provavelmente, teria que se aniquilar; teria que deixar pura e simplesmente de ser. 

A única resposta que se tem oferecido como objecção a esta constatação é a de que o corpo não tem qualquer importância para determinar o que é um homem ou uma mulher. É este princípio que justifica a difundida distinção entre sexo e género. Para os que assim distinguem, o sexo é o conjunto dos caracteres sexuais corpóreos, e sob este aspecto pode possuir-se um sistema reprodutor feminino ou masculino. O género é uma categoria comportamental socialmente construída em que se pode assumir o papel de homem ou de mulher. Ora, para os que assim razoam, o sexo não determina o género. Pode-se ter cromossomas femininos e um sistema reprodutor feminino e ser um homem e pode-se ter cromossomas masculinos e um sistema reprodutor condizente e ser uma mulher. Os teóricos do género concluem, então, que pertence a cada um assumir o papel de mulher ou de homem, ou mesmo – porque não? - um género neutro ou misto, conforme aos seus sentimentos e à íntima percepção que tiver de si mesmo. O corpo, e mais particularmente o sexo, deixaram de ser um elemento constitutivo da identidade da pessoa. Para elaborar esta teoria torna-se necessário, pois, rasgar a unidade fundamental do ser humano e recair no dualismo. O ser humano já não é vontade e corpo, mas principalmente vontade, à qual se ampara um corpo. 

Esta ideia não é nova. Na verdade, é muito velha. O gnosticismo de todos os tempos também corta o ser humano em dois, corpo e alma; a alma é boa, o corpo é mau. Diziam os gnósticos que o corpo não faz verdadeiramente parte do eu; a alma é que é o eu, e, para ela, o corpo é bem mais uma prisão. Olhada a questão desta perspectiva, os cátaros do século doze foram notáveis teóricos do género. Como só conferiam valor à centelha imaterial do espírito, e não ao nosso rude revestimento de carne, não distinguiam entre homens e mulheres. Assim, é possível ver que também neste assunto, como frequentemente acontece em outros, as ideias que julgamos progressistas são a repetição de ideias antiquadas.

Todo o edifício da teoria do género só se mantém enquanto se sustiver o alicerce da separação entre vontade e corpo. Mas, uma vez rejeitada como falsa esta separação e derruído o alicerce, toda a construção se desfaz em uma nuvem de poeira. 

A unidade do ser humano, composto de alma e corpo, é um dado imediato da consciência. Aquilo que o corpo sente e faz são paixões e acções do mesmo sujeito que opera com a inteligência e a vontade. A ciência contemporânea corrobora vigorosamente esta unidade, mesmo quanto aos nossos pensamentos e decisões, que, por serem acompanhados de fenómenos orgânicos empiricamente verificáveis, sugerem a alguns a falsa consequência de que o homem não é senão corpo. Por outro lado, é bem conhecida, e pode facilmente descobrir-se na experiência comum, a influência que os factos orgânicos exercem sobre as operações intelectuais.

Quando se olha o ser humano na sua inteireza, revela-se-nos a sua profunda unidade da vontade e do corpo. Enquanto é vontade, o ser humano participa da indeterminação própria da imaterialidade, porque a vontade é um poder de por si mesmo se determinar a proceder desta ou daquela maneira. Enquanto é corpo, o ser humano participa da determinação própria da matéria, que encerra os corpos em distinções e lhes assinala certas operações naturais.

O caso de Bruce Jenner é uma questão de identidade. Neste ponto, parece que todos concordamos. Mas não é uma afirmação de identidade, como muitas vezes se diz – é uma negação de identidade.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A importância da velha ortografia

Já se apresentaram muitos argumentos espúrios para justificar a bondade do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Alguns desses simulacros de raciocínio foram produzidos por académicos que, sem nenhum olhar crítico sobre a questão, se limitam a repetir o que os outros disseram, mas como se fosse uma evidência adquirida por meios próprios, proferida da altura da cátedra em tom de severidade e repreensão.

Um dos argumentos utilizados por um desses fantoches da cena académica é o de que o Acordo é tão mais necessário quanto existe uma disparidade evidente e inútil entre a grafia e a fonia da língua, ou seja, entre a forma como as palavras se escrevem e a forma como são pronunciadas. E parece que, esgotando-se toda a linguagem no vaivém entre estas duas operações de falar e escrever, a grafia antiga é uma extravagância não justificada, e é imenso o número de palavras em que se intrometem letras e acentos supérfluos.

O que este ilustre ignorante não recorda na dicotomia que faz é a operação mista da língua a que chamamos leitura. É uma operação mista, porque tem o seu fundamento na língua escrita e o seu acabamento na língua falada que a pronuncia. Ora, eu não sou um especialista na língua portuguesa – mas, creio, também, que não é necessário sê-lo para perceber a importância da grafia para a operação de leitura. Se não existisse mais do que o escrever e o falar, talvez o argumento tivesse valor; mas, existe também o ler, por isso, o argumento não vale nada.

As palavras escritas são silenciosas. Não conhecemos através delas, quando as conhecemos, a sua pronúncia, e pode bem dar-se o caso de que não consigamos associar uma palavra escrita à palavra falada que lhe corresponde. Ora, quando se lê, as aparentes extravagâncias da grafia antiga em muitas palavras ajudam a discernir a palavra falada que lhes corresponde, porque indicam a pronúncia correcta daquele sinal escrito. Têm assim uma dupla importância: indicam o sentido certo da palavra usada e indicam a maneira correcta de a pronunciar.

Numa cultura tão dependente da palavra escrita e da leitura como é a nossa, e em que a aprendizagem se faz também sobretudo pela leitura, dentro de algumas décadas a pronúncia do português estará totalmente corrompida. E os nossos políticos, e a nossa geração, serão culpados pela degradação do património linguístico português, elemento de extraordinária importância da nossa identidade nacional.