sábado, 9 de maio de 2015

O que é o conservadorismo?

Se alguém me perguntasse o que é o conservadorismo – em geral, ninguém pergunta, mas imaginemos que por um qualquer estranho motivo isso sucedia – eu começaria uma fiada monótona de subtis análises de linguagem em que observaria que o nome conservadorismo não é mais do que uma derivação do verbo conservar, que, por sua vez, conota a existência prévia de algo que deve ser conservado, implicando, pois, o acto de criar. O conservador põe a ênfase toda em conservar e não em criar porque o conservadorismo começa com uma atitude de humildade - a de aceitar que certas coisas, as mais importantes na política, na ética e na vida, não são criadas pelo homem, e quanto a essas tudo o que o homem pode fazer é aceitá-las e conservá-las. Todas as forças políticas que não são conservadoras acreditam que o homem tem o poder de as criar e é por isso que se sentem livres para as destruir.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O malabarista de universos


As mais recentes estimativas da ciência concluem que o universo existe há 13.7 mil milhões de anos. O seu diâmetro mede-se nuns incomensuráveis 91 mil milhões de anos-luz e calcula-se que nele se abriguem 100 mil milhões de galáxias. Em relação ao homem, as estimativas da ciência são bem mais modestas. Aquilo que a biologia diz ter sido o primeiro humano, no sentido pleno do termo, fez a sua aparição há somente 200 mil anos neste pequeno e insignificante grão de areia cósmico a que chamamos Terra. Tudo indica que o homem, que se ergueu do pó num universo que existiu muito antes dele e que existe na sua maior parte sem ele, não tem nenhuma relevância no curso geral das coisas. E uma parte dos homens, quando medita por um instante nisto, conclui que Deus não existe.

Esta transição de pensamento da insignificância do homem para a inexistência de Deus, embora levemente disparatada em termos lógicos, conclui, na verdade, por um ateísmo teologicamente muito preciso. Por pouco não se poderia dizer que é um ateísmo cristão. Este ateísmo parte do mesmo pressuposto que o cristianismo: que entre o homem e Deus deve existir uma tão íntima ligação, que se Deus criou o mundo, o criou para o homem. Mas, se não o criou para o homem, então, não o criou de todo. Afinal, o universo é incompreensivelmente velho e o ser humano é para ele um recém-nascido; durante os milhões e milhões de anos em que o mundo foi um espectáculo sem espectador, Deus parece ter hesitado nos seus propósitos humanistas.

Se se quiser examinar a questão de maneira rigorosa, ver-se-á, porém, que a informação científica que sustenta esta conclusão pelo ateísmo é a mesma que a derruba. Porque, não obstante a provecta idade do universo e a sua maravilhosa vastidão, a ciência diz-nos hoje que houve um momento em que ele era novo, acabado de nascer, e todo o tempo, espaço, matéria e energia estavam concentrados num ponto minúsculo. E a pergunta pelo que trouxe à vida todas estas coisas que não se encontravam em parte alguma, é a pergunta por um Criador. Para este assunto, nada importa que o mundo seja muito velho, porque também já foi muito novo; nem importa que seja muito vasto, porque também já não foi nada. No âmago daquela objecção não está a dúvida sobre Deus, mas a dúvida sobre o homem.

Copérnico é tido hoje como o fautor de um golpe solene desferido no orgulho humano, quando, a bem da correcção da ciência astronómica, tirou a humanidade do centro do universo. Não muito tempo depois, Descartes observava, e a ciência futura viria a dar-lhe razão, que havia uma imensidão de coisas no mundo que o homem não conhecia e das quais não se podia servir; e, por esta razão, não lhe parecia provável que o universo tivesse sido feito a pensar nas necessidades da humanidade. Esta foi a entrada na história de um sentimento que pervadiu a mentalidade contemporânea, o sentimento contrário à concepção do homem como alguma coisa de peculiar. Visto bem o universo, confrontadas as suas dimensões inabarcáveis com a ridícula pequenez de um indivíduo humano, este aparenta ser mais um agregado de pó estelar sem privilégio, erguido por um momento sobre a terra e logo disperso pelo mesmo vento cósmico que o formou. Esta maneira de ver as coisas tem alguma coisa de poético, porque sugere uma unidade fundamental de tudo. Todas as maravilhas do cosmos, desde o mais pequeno átomo de carbono à maior estrela, envolvendo os animais e os homens, onde quer que eles existam, permanecem em pé de igualdade umas diante das outras, no que têm de irrisório no pano de fundo tão vasto em que se perdem.

Mas, por mais sedutor que seja este pensamento, há outro que se faz presente, também ele intrigante, que é o de notar que se a dimensão do universo é tão avassaladora como parece ser, pelo menos nos coube a sorte de ocupar nele o lugar mais interessante. É que talvez em nenhum outro, além do espectáculo de luzes das galáxias, e do aterrador silêncio do éter, seja possível contemplar esse universo a tornar-se pequeno diante de um dos seus elementos. Porque, por mais espaçoso que seja este mundo que habitamos, na verdade, ainda que seja infinito, todo ele, e todos os outros que possam existir, cabem dentro da ideia humana designada pela pequenina palavra «ser». E por mais profundos que sejam os abismos que se encontrem no espaço sideral, nenhum é realmente tão profundo e tão terrível como aquele que pode pronunciar com sentido a palavra «eu».

Estes aspectos assombrosos da vida do homem, que não encontram nada de remotamente semelhante na matéria bruta que compõe a teia das galáxias, talvez devido à sua familiaridade, são frequentemente postos de parte quando se começa a discutir o esmagamento do homem pelas forças da matéria. Mas, quando são considerados, é o universo que parece pequeno e o homem grande; porque um homem pode conter em si o universo inteiro. Não é uma metáfora, mas é o fundamento de toda a ciência. A nossa mente recebe em si todas as coisas na unidade fundamental da sua natureza. Os demais seres neste mundo são apenas o que são. O homem, porém, é também o que os outros são, porque recebe em si a ideia que os distingue e lhes confere o seu tipo próprio; e, ainda assim, é mais o que é do que todos, porque pode dispor de si mesmo da maneira que nenhum outro pode.

É ele o verdadeiro malabarista de universos que um misterioso desenho de Grandville evoca. E nada disto tem comparação com qualquer coisa que vemos. Porque dos muitos universos que possa haver, um não cabe dentro de outro - mas todos, sem excepção, estão dentro do homem.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O homem e a circunstância


«Ser violada por um padrasto já é muito mau. Só faltava ter um filho da relação. Seria quase como o filme do Polanski, A Semente do Diabo. Era só o que faltava. Não vejo outra opção a não ser terminar a gravidez. E falo não apenas como psiquiatra, mas como cidadão. Ter este filho fere de tal maneira os nossos valores simbólicos que não poderíamos viver enquanto sociedade com essa decisão. Seria pactuar com um crime. Ter este filho do diabo seria a continuação de um traumatismo. Mesmo que ela tenha a fantasia, muito comum em pré-adolescentes e adolescentes, de querer ser mãe, o melhor é tirá-la da cabeça. [Essa fantasia] tem que ser vista como uma prova de imaturidade, de não ter capacidade para perceber o que lhe está a acontecer.»

Existe um perigo sempre presente nas nossas relações com o outro – e, porque, inevitavelmente, somos para alguém um outro, é um perigo que ameaça cada um. É o perigo de ligar alguém a uma particularidade como se a pessoa não fosse senão aquilo que essa particularidade é ou representa. Como regra geral, fazemo-lo em relação a alguma circunstância com importância para nós. Por exemplo, o João, que me roubou as bolachas, nunca será o João; é o larápio que me roubou as bolachas. O Álvaro, que é meu adversário político, não é o Álvaro, é o instrumento de uma ideologia nefasta. O Guilherme, meu concorrente, deixou de ser o Guilherme para se tornar num obstáculo. Também funciona ao contrário, como quando valorizamos alguém por um aspecto particular e desconsideramos tudo o mais, como se apreciássemos a nossa mãe apenas por ser boa cozinheira ou se procurássemos a companhia de um amigo só porque ele é rico.

Esta é uma certa maneira subtil de nos colocarmos no centro do universo. As pessoas que vivem em nosso redor são definidas pela maneira boa ou má como nos afectam. Tudo o mais fica obscurecido. É uma atitude semelhante à do homem que abre a janela e pretende ver a partir dela tudo o que existe – tudo o que imerge no horizonte não existe para ele só porque não lhe entra pelos olhos dentro. Só que todas as janelas são estreitas e apenas podem mostrar a menor parte do mundo – incluindo aquelas janelas pelas quais vemos os outros.

Ser reduzido a pouco mais do que uma circunstância e ao seu significado é um risco que todos corremos, e logo desde o nascimento. Não é necessário um grande esforço de memória para lembrar que ainda ontem os filhos nascidos fora do casamento viviam toda a vida sob o signo da bastardia. Seria interessante perguntar a um dos homens ou mulheres nascidos nestas circunstâncias se pensam que a palavra que melhor os define é “bastardo”. Certamente que não; porque um homem ou uma mulher são mais do que a circunstância infeliz ou feliz em que aparecem na vida de alguém. O mito de que as circunstâncias de nascimento definem o homem é, verdadeiramente, uma superstição vetusta, que ciclicamente se renova.

Ora, quando, no trecho acima transcrito, Carlos Amaral Dias chama à criança em causa “filho do diabo” e afirma que deixar despontar este fruto maligno é pactuar com o crime do pai, não consigo livrar-me da sensação de que oiço os ecos da superstição antiga e do mito obscurantista que nos dizia que a circunstância em que um homem ou uma mulher nascem os abarca e os define.