quarta-feira, 15 de abril de 2015

Uma nota cartesiana: O critério da verdade em filosofia


A crítica Cartesiana às discórdias e contendas verificadas na história da filosofia, e aos seus cultores, dos quais chega a dizer, na Segunda Parte do «Discurso do Método», que «nada se poderia imaginar tão estranho e tão pouco crível que algum dos filósofos já não houvesse dito», é a primeira manifestação do cepticismo da modernidade quanto à utilidade da filosofia para resolver os problemas que se propõe. Como uma embarcação que navega sem amarras e sem porto, empurrada e dirigida pelo vento, também a filosofia parece incapaz de firmar conclusões no meio das disputas dos académicos, construindo sobre o vazio, especulando ao arbítrio, inútil para a ciência.

As ciências da natureza, com o que ganharam de robustez a partir daquele mesmo século em que Descartes escrevia, e com o fascínio que sobre si atraíram, pareciam realizar o mais sólido contraste com a especulação filosófica. As ciências estavam inseparavelmente ligadas ao real pelo vínculo da experiência empírica, da observação metódica, da medição exacta. O critério de verdade é a própria coisa que se manifesta aos sentidos ou que emenda os cálculos aos cientistas. O cientista procura os factos e acolhe-os e depois é que elabora as teorias. A autoridade não tem para ele nenhum valor. Difere em tudo isto do filósofo, que não apela à observação, que não necessita dos factos, que se curva a falsas autoridades, que se vale mais da retórica do que do saber, que não tem critério de verdade para as teorias que inventa.

Descartes, pese embora a crítica, ensaiou uma tentativa de fundar a filosofia na verdade indubitável da dúvida; e, ainda assim, não conseguiu pôr fim às dúvidas. Tudo o que fez deduzir daquele axioma, tudo o que edificou sobre aquele ponto arquimédico, logo se pretendeu refutado e desfeito. E, assim, a crítica de Descartes à filosofia sobreviveu à sua própria filosofia. Parece que, no torvelinho das várias dicotomias de pensamento que a história da filosofia regista, não há juiz que decida onde está a verdade.

Só que há esse juiz. É o mesmo juiz que julga a causa das ciências da natureza: é o real. As ciências da natureza, pelo vínculo que as prende à realidade, que é a observação, dispõem de um critério de verdade, ou, pelo menos, de verosimilhança, pelo qual medem as leis e as teorias. A filosofia tem também um critério de discernimento entre o verdadeiro e o falso. Como toda a ciência, tem princípios de que parte; e os princípios da filosofia são os mais universais que pode haver. São princípios nascidos da intuição primária do real pela inteligência e que são supostos por todo o acto de pensamento aplicados implicitamente por toda e qualquer ciência. Falo, por exemplo, do princípio da não-contradição, ou do princípio da razão de ser, que, se para os demais saberes são leis que apenas estão supostas, são as ferramentas próprias da ciência do ser, porque estão mais ou menos proximamente conexas com a intuição primordial do ser pela inteligência.

Mas a posse destes princípios não pressupõe qualquer tipo de inatismo ou de categoria de antemão presente no intelecto. Todo o conhecimento humano principia nos sentidos, e é do contacto com o real possibilitado pela experiência que a inteligência os colhe, percebendo, contudo, que a sua evidência supera em muito aquela que a simples experiência, ainda que várias vezes repetida, poderia facultar. É ainda na experiência sensível que a filosofia se apropria das qualidades das coisas e pode exprimir de maneira muito genérica aquela que é a sua natureza, aproximando-se, a pouco e pouco, das definições, que são, por excelência, princípios de demonstração. É na descrição e análise rigorosas da experiência interna ou externa que a filosofia pode conhecer os processos do mundo psicológico e físico e conceber adequadamente as respostas às perguntas que faz.

É certo que o tipo de observação necessária à actividade filosófica é diferente do tipo de observação necessário às ciências da natureza. Porém, todas as ciências têm o seu tipo de perguntas; e, para as perguntas universais que a filosofia faz, o tipo de observação que o filósofo pratica é bastante para encontrar respostas; não o será para o cientista, porque faz perguntas menos universais, mais relacionadas com a concreção das coisas.

Prova-se com exemplos a importância da experiência como juiz verdade na filosofia. Pela nossa experiência interna de conhecimento, percebemos de que só depois de um longo processo de destrinça entre as qualidades essenciais e não-essencias de um qualquer objecto, por comparação, por indução, por experimentação, é que podemos chegar a conhecer a sua essência e dar-lhe uma definição. Uma teoria da intuição directa das essências, ao estilo husserliano, é incompatível com a experiência, e, portanto, falsa. É também na experiência que encontramos o princípio de refutação do mecanicismo, quando constatamos que nada que aja ou produza alguma coisa gera quaisquer efeitos, ao acaso; pelo contrário, vemos que tudo o que age tende sempre a produzir estes ou aqueles efeitos e não outros, como os olhos, que vêem, mas não digerem, ou o fogo que queima, mas não congela. A eficiência, a capacidade de produzir algo, por si só, não explica esta constância, esta tendência intrínseca de uma causa a um efeito; é necessário recorrer a uma causa, não eficiente, mas de tipo superior, uma causa directora, aquilo a que Aristóteles chamou causa final.

Esta sólida união entre os princípios universais do real e a experiência, como método para encontro com a verdade das coisas, só foi realizada plenamente na tradição aristotélica e tomista.