sábado, 20 de dezembro de 2014

O fundamento real da ideia de causa e do princípio da causalidade


Em discussão travada sobre a afirmação de que a causa era uma somente uma idealização e não alguma coisa de real, fez-se necessário esclarecer a matéria através das seguintes precisões, principalmente porque o meu oponente defendeu a sua tese apelando aos postulados da moderna física quântica sobre o indeterminismo no mundo subatómico. 

As declarações proferidas por Heisenberg no seu célebre livro Physics and Philosophy, bem como por outros físicos quânticos que professam o indeterminismo ontológico das partículas elementares, provam a tendência da física moderna para o idealismo e, a meu ver, são consequência da falta de reflexão sobre o objecto e método próprios das ciências experimentais.

1. Os conceitos empregados pelas ciências naturais não são conceitos fechados, isto é, podem sempre ser modificados para corresponder à observação ou a novas hipóteses. A razão do facto encontra-se no método indutivo ou hipotético das ciências naturais, que não consegue dotar de verdadeira universalidade os conceitos e premissas próprios destas ciências.

2. Se o conceito de causa é um conceito próprio das ciências naturais não pode considerar-se um conceito fechado, devendo, portanto, ser actualizado para corresponder às observações ou novas hipóteses.

3. No entanto, a ideia de causa não é um conceito próprio das ciências naturais, mas é uma ideia metafísica, ou seja, é originada na inteligência por abstracção metafísica. O mesmo se diga da ideia de efeito. Que isto é assim, prova-se porque a ideia de causa e a ideia de efeito não contêm em si mesmas nenhuma nota de materialidade sensível ou quantitativa. A ideia de causa, particularmente, não é mais do que a ideia de ente considerado enquanto princípio de onde procede alguma coisa. Assim, pode definir-se causa como princípio extrínseco do qual alguma coisa depende quanto à existência.

4. A conexão que existe entre a ideia de causa e a ideia daquilo que «começa a existir» é analítica, isto é, resulta comparação das ideias envolvidas, portanto, é necessária e universal. Este tipo de conexão de ideias não se encontra em proposições das ciências naturais, cuja conexão é sempre experimental. A verdade do princípio da causalidade está fundada, proximamente, no princípio de razão de ser, remotamente, no princípio da identidade. O intelecto apreende a distinção entre o ser e o não-ser e percebe que a ponte pela qual alguma coisa transita do não-ser ao ser é o ser enquanto é causa. Uma formulação possível do princípio da causalidade é «todo o contingente tem uma causa eficiente da sua existência», em que «contingente» é entendido como aquilo que tem potência para ser e potência para não ser.

5. A análise da causalidade, como se vê, é do domínio da metafísica, não do domínio das ciências naturais. A causalidade não se formula propriamente relativamente ao fenómeno mas relativamente ao ser. As ciências que lidam com os fenómenos formularam uma definição imprópria de causa que é a de um fenómeno que constantemente precede no tempo outro fenómeno. Esta formulação identifica causalidade com precedência temporal de um fenómeno a outro – ora, o princípio da causalidade não estabelece que um dado fenómeno que preceda constantemente no tempo outro dado fenómeno é a causa deste último, mas estabelece somente que se algo é contingente, se algo é um efeito, tem que ter uma causa, seja ela qual for.

6. Há que distinguir o princípio da causalidade da universalização da conexão entre um certo facto e outro facto estabelecida pelas leis científicas. As leis científicas, por serem indutivas ou hipotéticas, não têm verdadeira universalidade, é sempre possível a sua falsificação no sentido popperiano, ou seja, a observação de um caso singular que contradiga o enunciado universal. Se determinismo se entende por atribuição aos enunciados das ciências naturais de uma verdadeira universalidade e necessidade, então, o determinismo é falso. Mas isto em nada afecta o princípio da causalidade que apenas afirma que o contingente tem uma causa.

7. Uma vez que a dependência real do ser do efeito do ser da causa não é sensível, não pode também a observação declarar que uma tal dependência não existe. O princípio do indeterminismo de Heisenberg não refuta o princípio da causalidade, mas os físicos quânticos que assim o afirmam confundem uma condição do nosso conhecimento com  uma condição ontológica. Esta transição inválida pode compreender-se à luz da tendência para a desmaterialização do instrumento físico de experimentação científica. A célebre tese quântica de que é impossível conhecer simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula, que facilmente se explicaria pela interferência do instrumento de pesquisa, acabou por ser tomada como uma condição da realidade em si mesma, porque a interferência do instrumento, pelo mesmo facto de não se poder remover, foi tomada como uma propriedade do objecto – assim, os resultados da experimentação científica não têm sentido senão em relação às precisas operações que os produziram. A extensão das conclusões experimentais para lá do âmbito da operação científica é ilegítima.

8. Oiçamos estas palavras de Mortimer J. Adler sobre o assunto: «Quando os princípios do indetermismo de Heisenberg foram estabelecidos, os físicos quânticos reconheceram que as medições experimentais intrusivas que facultaram os dados usados nas formulações matemáticas da teoria quântica conferiam aos objectos e eventos subatómicos o seu carácter indeterminado [...] [o] carácter indeterminado dos objectos e eventos subatómicos não lhes é intrínseco, nem propriedades que tenham independentemente da sua afectação de qualquer maneira pelas medições feitas por dispositivos experimentais intrusivos».

9. Neils Bohr destruiu, sem dúvida, a ilusão da pura objectividade nas ciências experimentais, mostrando como estas ciências não diferem essencialmente das ciências da introspecção, como a psicologia, em que existe a intrusão do sujeito no conhecimento do objecto.

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