domingo, 23 de novembro de 2014

O que é a fé religiosa? A existência de Deus é objecto de fé?


Começo este capítulo da série de artigos sobre a fé por chamar a atenção do leitor para um facto da maior importância. Impõe-se que eu faça uma declaração de intenções: eu professo a fé da Igreja Católica Romana, com a graça de Deus. Preparo-me para escrever uns parágrafos sobre a fé religiosa em particular e o quadro mental que tenho presente é o da concepção católica sobre a questão. Darei a esta concepção mais atenção do que a outras, embora acredite que o que direi em seguida se aplica na generalidade à fé das três grandes religiões monoteístas. Prevenido o leitor, posso agora entrar na exposição do assunto.

A fé é o assentimento do intelecto a um juízo afirmado por outro. O motivo do assentimento é a evidência extrínseca do objecto proporcionado ou pela evidência intrínseca do testemunho ou pela evidência intrínseca da autoridade habitual daquele que testemunha.

Fé religiosa pode ter, em geral, três sentidos:

    1) Os ritos religiosos observados por respeito de uma  tradição acolhida;
        2)O conjunto de sentimentos despertado pela religião;
        3) O assentimento do intelecto a uma revelação divina.

Conquanto possa significar legitimamente cada uma destas coisas, a fé religiosa significa propriamente o assentimento do intelecto a uma revelação divina. Como já notei anteriormente, a fé é a adesão a um testemunho – a fé religiosa é a adesão a um testemunho de Deus.

Como toda a fé, a fé religiosa assente a enunciados que não são evidentes em si mesmos para o intelecto. O que é conhecido por fé é conhecido por evidência extrínseca que se apoia na evidência intrínseca do objecto possuída por aquele que testemunha. A fé religiosa, então, adere por meio de evidência extrínseca a verdades conhecidas em si mesmas por Deus[1].

A evidência extrínseca em causa, ou seja, a evidência da veracidade do testemunho, motivo formal do assentimento, é a autoridade de Deus. Uma vez feito o juízo do credibilidade sobre o facto de que houve uma revelação divina[2], pressuposto que Deus não se engana nem pode enganar ninguém, ou seja, dada como certa a autoridade divina, é prestado assentimento de fé àquilo que é revelado. Assim, existe um duplo objecto de fé religiosa:

          a) O objecto material: as verdades reveladas que devem ser cridas, como, por exemplo, que Deus é uno por natureza e subsiste em três pessoas;

           b) O objecto formal: o motivo do assentimento intelectual às verdades reveladas que é a autoridade divina.

É esta a exposição geral daquilo a que correntemente se chama fé religiosa, ou, ainda mais correntemente, por antonomásia, a fé.

O que precede resolve implicitamente a questão de saber se a existência de Deus é objecto material de fé. São Tomás de Aquino discutiu sinteticamente o problema na célebre questão segunda da Suma Teológica, artigo segundo, intitulado Se se pode demonstrar a existência de Deus. São Tomás põe a si mesmo a seguinte dificuldade.

A existência de Deus é um artigo de fé. Mas o que é de fé não se pode demonstrar, porque a demonstração evidencia e a fé é sobre aquilo que não é evidente, como ensina o Apóstolo em Heb 11:1. Logo, a existência de Deus não é demonstrável.

Seguidamente, o frade dominicano soluciona a dificuldade.

A existência de Deus e outras verdades semelhantes que sobre ele podemos conhecer com a razão, como diz o Apóstolo em Rom 1:19, não são artigos de fé, mas preâmbulos aos artigos e desta maneira a fé pressupõe o conhecimento natural, como a graça pressupõe a natureza e a perfeição o perfectível.

A fé pressupõe quer o facto da revelação, já que é a adesão a um testemunho, quer a existência daquele que testemunha, ou seja, para o que agora nos interessa, a existência de Deus. A fé pressupõe igualmente o conhecimento de que Deus não se engana nem pode enganar, ou seja, o conhecimento da autoridade divina, como qualquer fé fundada na autoridade pressupõe o conhecimento da autoridade daquele que testemunha. Assim, a existência de Deus não é objecto de fé, mas é demonstrável por discurso natural. No entanto, no mesmo lugar, São Tomás nota ainda que

Nada impede, não obstante, que alguém aceite por fé o que em si mesmo é demonstrável e cognoscível, porque não conheça ou não entenda a demonstração.

No caso enunciado, teríamos somente uma fé determinada pela autoridade humana daquele que atesta a existência de Deus, já que este conhecimento, sendo pressuposto da fé divina, não pode ser sua consequência. Mas como toda a evidência extrínseca se apoia na evidência intrínseca, o  conhecimento natural de Deus é ainda pressuposto no intelecto daquele que testemunha[3].



[1] AQUINO, 1 q. 1 a.2, resp.
[2] Os motivos de credibilidade que fundam este juízo são os argumentos históricos e os sinais externos que demonstram a origem divina da revelação.
[3] Como conclui Francisco DE VITÓRIA, Relecciones teológicas, traf. Jaime Tarrubiano Ripoll, tomo III, Libraria Religiosa Hernandéz, Madrid, 1917, págs. 189-194.

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