sábado, 15 de novembro de 2014

O que é a fé?


Sobre o conceito de fé mais mal-entendidos se têm sobreposto do que sobre qualquer outro que vagamente respeite à religião. O que me proponho fazer, na série que com este texto se inicia, é o de esclarecer o que é a fé. Farei isto por várias fases. Em primeiro lugar, procurarei definir em geral o que é a fé. Em segundo lugar, procurarei fazer compreender o valor da fé para o conhecimento e a sua relação com a razão. Em terceiro lugar, abordarei em particular a fé religiosa e a questão de saber se a existência de Deus é objecto de fé. Em quarto lugar, enunciarei a doutrina da Igreja Católica Romana sobre a fé. Comecemos, sem demora, por tratar a primeira questão.

O primeiro sentido de fé é-nos dado pelo emprego corrente do nome. Não raras vezes falamos em pôr fé nas palavras de um amigo ou de um político querendo com isto dizer que aceitamos a verdade daquilo que ele afirma. É também uso dizer que uma qualquer declaração ou assinatura de um oficial, como, por exemplo, um notário, faz fé daquilo que é declarado ou assinado, ou seja, que atesta a sua veracidade. Assim, o nome fé, em geral, significa uma adesão a um testemunho que é tido como verdadeiro.

Tratar do tema da crença – como fiz em outro artigo – foi o pressuposto necessário para poder definir adequadamente a fé. A fé, bem se vê, é uma adesão intelectual a uma proposição motivada por uma evidência extrínseca à mesma proposição.

A fé pode tomar-se em sentido subjectivo, como o acto de adesão do intelecto humano ao testemunho e em sentido objectivo, como aquilo que é testemunhado e crido. Pode ainda perguntar-se pelo motivo que determina a adesão ao que é testemunhado. Não é, sem dúvida, a evidência daquilo que é crido, porque o intelecto só adere por fé àquilo que não pode ver por si mesmo. Só (a) a evidência da veracidade do testemunho ou (b) a evidência da autoridade pessoal daquele que testemunha podem fundar razoavelmente esta adesão que, por não ser a inteligência determinada pela evidência daquilo que é crido, necessita de ser realizada por um acto de vontade.

Vê-se, então, que existe uma certa oposição entre ciência e fé, no sentido em que a ciência é dada pela evidência intrínseca do objecto, por aquilo que a experiência ou intelecto podem ver por si mesmos, enquanto que a fé é dada pela evidência extrínseca ao objecto proporcionada pelo testemunho – a autoridade ou as circunstâncias que tornam impossível a dúvida – e recai sobre aquilo que o intelecto não pode ver por si mesmo[1]. No entanto, dizer isto é dizer coisa muito diferente de que a fé não é razoável. Se o testemunho for credível, a fé é razoável. Pense-se, por exemplo, no manancial de factos que apenas conhecemos porque nos foram relatados por outro, ou em viva voz, ou através de manuais, dicionários, enciclopédias e sobre os quais não fazemos pairar a mínima dúvida.

Chegámos, então, a uma definição geral de fé, discernimos o seu sentido objectivo e subjectivo, bem como o seu motivo. Vimos também que, como não há evidência do objecto de fé, o intelecto não é levado a aderir à enunciação senão por um acto de vontade que pode ser razoável ou irrazoável, segundo a credibilidade do testemunho.



[1] AQUINO, S. Th., 2-2 q.1 a.4, corpus

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