terça-feira, 28 de outubro de 2014

O(s) Papa(s), o Big Bang e a Teoria da Evolução




O Papa Francisco, em palavras proferidas ontem na Sessão Plenária da Pontifícia Academia de Ciências, parece resgatar dos arquivos pontifícios a alocução Un Ora, de Pio XII, dirigida também à Pontifícia Academia de Ciências, em 22 de Novembro de 1951. Francisco, falando da complexa questão da origem do universo, afirmou que «o Big Bang (...) não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a». Pio XII, na referida intervenção, perorando mais demoradamente sobre as confirmações que o desenvolvimento das ciências vinha trazendo às demonstrações da existência de Deus, já havia considerado que a ciência moderna «apontou o início [dos eventos cósmicos] cerca de 5 mil milhões de anos atrás, confirmando com a positividade própria das provas físicas, a contingência do universo e a fundada dedução de que por aquela época o cosmos tenha saído das mãos do Criador».

O aproveitamento dos conceitos e premissas próprias das ciências experimentais para discorrer sobre a questão da existência de Deus e da Criação do universo corpóreo deve ser feito com toda a cautela. Os ditos conceitos ou premissas, quer pelo seu carácter hipotético, quer porque, sobretudo, carecem da verdadeira universalidade dos conceitos e premissas metafísicas, não podem fundar uma prova certa da Criação ex nihilo e de que Deus é. Uma argumentação que suponha a hipótese do Big Bang pode cair facilmente no esquema de pensamento do tipo deus das lacunas, repetidamente denunciado, com razão ou sem ela, pelos gladiadores do cientificismo. Esta grande explosão cósmica não implica necessariamente a creatio ex nihilo, não implicando, portanto, o efeito próprio da acção de Deus. A célebre teoria cósmica aponta para aquilo que pode ter sido o começo deste universo em particular, o universo observável, como resultado do acontecido em qualquer outro universo muito mais velho, ou pode, simplesmente, indicar mais um facto de entre outros tantos semelhantes ocorridos no vasto cenário de um multiverso. A célebre explosão pode ser o efeito de causas naturais.

O conceito de universo, à semelhança da grande parte dos conceitos empregados nas ciências da natureza, não é um conceito fechado, intencionando significar somente o conjunto do universo corpóreo que cai no espectro da observação astronómica. Não pode, pois, bem se vê, ainda que suposta a hipótese em causa, fundar a pretensão de um começo absoluto do espaço e do tempo. Não facultando semelhante hipótese a certeza da contingência do universo corpóreo, não é possível atribuir aquele evento cósmico à acção criadora divina como sua causa própria. A dilucidação deste conceito de causa própria é de capital importância para a teologia natural e o seu descuido conduz muitos bons filósofos a representar falsamente a questão. Entendo por causa própria a causa necessária e imediatamente requerida para a produção de um dado efeito. O princípio de que a partir de um efeito qualquer se pode demonstrar a existência da sua causa própria é o princípio fundamental de todas as demonstrações da existência de Deus[1]. Precisando a noção, evita-se o escolho do deus das lacunas, uma vez que este vício de raciocínio conclui precipitadamente pela atribuição de um certo efeito a uma causa que não é imediatamente necessária para a sua produção. Sendo que o Big Bang não consiste necessariamente no começo absoluto do universo corpóreo, esta deflagração pode ter sido originada por causas naturais, não constituindo aquele efeito próprio e exclusivo da intervenção criadora divina, que é sempre uma produção total.

Quando se abandona o terreno da metafísica, no qual os conceitos e as proposições se caracterizam por uma verdadeira universalidade, não se pode discorrer com certeza sobre Deus. É à metafísica que compete, valendo-se de proposições necessárias e de factos gerais certificados pela experiência, demonstrar a existência do Ente Supremo, fundada não neste ou naquele aspecto acidental dos fenómenos, mas no próprio ser das coisas. 

O Papa Francisco comentou, na mesma ocasião - pese embora a densidade dos temas, fê-lo em um só parágrafo - que a evolução não se opõe verdadeiramente ao criacionismo. Há um sentido em que esta frase é verdadeira e outro em que ela é falsa. A teoria da evolução opõe-se, sem a menor dúvida, à tese da criação em particular de cada espécie. No entanto, no que toca à tese da criação em geral, a teoria da evolução não lhe pode oferecer qualquer oposição, porque não pretende sequer responder à mesma questão. Foi este o sentido das palavras do Papa. O âmbito próprio da teoria da evolução, com efeito, pressupõe já a existência da natureza operante. Ora, aquilo que pressupõe as operações da natureza não pode ser a causa dessa mesma natureza. É na indagação sobre a origem da natureza que se situa o problema do criacionismo em geral, porque a criação é uma produção que não pressupõe matéria alguma, que não pressupõe o ente já formado, uma productio ex nihilo, que tem como fim a formação das coisas em toda a sua substância. A pretensa dicotomia verificada entre o criacionismo e o evolucionismo, tantas vezes afirmada por ilustres oradores e homens da ciência, é, neste ponto, que é o mais fundamental, completamente desprovida de sentido.

[1] AQUINO, S. Th., 1 q. 2 a 2, corpus: «Ex quolibet autem effectu potest demonstrari propriam causam eius esse...»

6 comentários:

  1. lol, sinceramente... se estas declaracoes vêm acrescentar alguma coisa, são mais contradicoes a este conto de fadas com 2000 anos

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    1. Se o diz, caro Anónimo... ponho fé nas suas palavras!

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    2. havia de chegar o dia em que a sua fé tinha algo em que se sustentar... fico feliz por lhe ter dado esse previlégio... nem todos os catolicos se podem gabar do mesmo

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    3. Estou certo que são todos muito infelizes por não terem esta honra.

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    4. infelizes nao direi, visto que vivem felizes na ignorancia... mas se lhes chega, quem sou eu para impor o meu modo de ver o mundo... afinal, nao sou deus...

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    5. Parece que, finalmente, falamos a mesma língua. De facto, se a caixa de comentários serve apenas para trocar galhardetes, não vale a pena usá-la. De qualquer forma, o comentário neste blogue é livre e ainda será mais livre a partir de agora que irei eliminar a sua moderação. Convido-o, caro Anónimo, se se quiser dar ao incómodo, a seguir as notícias da minha ignorância que vou publicando neste blogue. É bem-vindo, se vier por bem.

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