quinta-feira, 10 de julho de 2014

Admirável mundo novo

O caso das barrigas de aluguer é um exemplo particularmente ilustrastivo daquilo que acontece quando a técnica é instrumentalizada por uma falsa ética. A nossa sociedade contemporânea é o laboratório perfeito para produzir monstros, não por deter uma técnica que raia a omnipotência, mas por agir dentro de um paradigma moral em que poder é querer. Como o feiticeiro que invocou forças que já não consegue controlar, o mundo moderno, caído na escravidão do seu próprio aperfeiçoamento científico e tecnológico, construirá um amanhã em que os homens nascerão constrangidos pela manipulação da reprodução e da constituição genética do ser humano. 

As barrigas de aluguer são mais um caso particular em que as pessoas envolvidas se convertem em objectos de disposição alheia atrás da cortina de fumo de uma pretensa liberdade. A mulher gestante torna-se invólucro, pela violação da unidade dos seus processos biológicos e afectivos e o ser humano emergente à luz de uma ciência pervertida vê a sua história biológica - e genética - fraccionada, a sua identidade obscurecida, o seu mesmo ser alienado pela mãe gestante como uma mercadoria. 

Estamos cada vez mais próximos do admirável mundo novo profetizado por Aldous Huxley em que o homem foi relegado à categoria do artefacto e em que redundara em obscenidade o relato dos dias de outrora em que os homens eram gerados naturalmente com recurso às figuras embaraçosas do pai e da mãe.

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