quarta-feira, 9 de abril de 2014

Uma piada de Ricky Gervais


Afirmou certa vez o Sr. Ricky Gervais que o facto de ter aprendido a rezar lhe permitiria poupar alguns milhões em doações à caridade. O dito tem a sua graça, principalmente para um ateu que pense que rezar é uma desculpa para não fazer mais nada ou para um cristão que se sinta tentado a rezar só quando não pode fazer mais nada. Mas a graça esconde um lado sério. Ela encerra a acusação de que a oração é uma renúncia a agir. Esta acusação é fundada numa falácia que consiste em opor a acção do Criador à acção da criatura, como se fossem incompatíveis. É pretender que aquele que faz a oração renuncia a agir para dar lugar a Deus, e, que, se porventura fizer o que é humanamente possível, admite afinal que Deus não tem lugar. Este raciocínio poderia ser ilustrado se imaginarmos qual seria a diferente reacção de um cristão e de um ateu à notícia de que um amigo ou parente que passou por uma cirurgia severa se encontra fora de perigo. O cristão provavelmente exclamaria «Graças a Deus!», ao que o ateu prontamente replicaria «Graças aos médicos e à ciência!». Quando o Apóstolo Paulo escreveu aos coríntios que «Paulo semeou, Apolo regou, e Deus deu o crescimento», um céptico grego poderia ter objectado que tendo Paulo semeado e Apolo regado, Deus não tinha nada a ver com o assunto. 

O que esta linha de pensamento sugere é que, para provar que a oração serve de facto para alguma coisa, a vida dos fiéis deveria estar pejada de acontecimentos extraordinários. A terra deveria frutificar sem que Paulo semeasse e Apolo regasse, assim como o doente deveria ser curado sem mesmo precisar de se ir queixar ao médico. A verdade é que não faltam ocorrências extraordinárias na história do cristianismo; mas é também verdade que essas ocorrências são extraordinárias. O modo ordinário pelo qual Deus actua no mundo é outro e é absolutamente razoável que seja outro. A verdade é que podia não haver crescimento, mesmo que Paulo tivesse semeado e Apolo regado, a verdade é que se pode perder uma vida, mesmo quando se faz tudo para a salvar. Uma oração é sempre um reconhecimento da nossa dependência; mas não pode ser um pedido para a nossa saída de cena enquanto actores no teatro do universo. 

Houve um filósofo francês do século XVII chamado Malebranche, que, talvez com o fito de engrandecer o poder de Deus, defendeu que só Ele tinha poder, no sentido de que só Ele era a causa eficiente de tudo o que acontecia no mundo. O que Malebranche não percebeu é que a sua teoria, longe de engrandecer o poder de Deus, o diminuía; porque é possível que Deus seja tão forte que não precise de aniquilar o pequeno poder da criatura para mostrar a sua força; é bem possível que Deus faça resplandecer melhor a sua bondade não tirando aos homens a possibilidade do mérito. O Criador, para atender às petições que lhe são feitas, não precisa de desdizer a resposta que deu à petição que nunca lhe foi feita – não precisa de se substituir à criatura naquilo que desde o início a destinou a fazer; não precisa de lavrar a terra quando o homem conhece os tempos e as condições da lavoura, nem quer prescindir da ciência do médico, porque criou o homem para a ciência. Se não agisse assim, seria igual ao náufrago que, depois de ter construído um bote, prefere salvar-se a nado; ou ao construtor que talha uma porta para depois entrar pela janela. E do homem poderia verdadeiramente dizer-se que era um servo inútil, porque nem de si mesmo se poderia servir. Por isso é que o Sr. Ricky Gervais nunca poderia achar graça à sua própria piada se fosse cristão; porque a Igreja nunca deixou de rezar, embora nunca tenha deixado de fazer caridade. Porque ela sabe que ao homem foi concedido um papel, e que este não lhe será tirado.

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