quinta-feira, 10 de abril de 2014

A misteriosa luz de Marte


Tenho-me divertido bastante com as últimas notícias que nos têm chegado de Marte. Parece que a sonda «Curiosity», da NASA, fotografou uns reflexos de luz no nosso planeta vizinho, facto que tem sido interpretado por algumas pessoas como uma evidência da existência de vida extraterrestre. É engraçado especular o que é que poderia ser aquela luz, tanto mais quanto se pode associar uma luz a qualquer coisa. É uma hipótese, por exemplo, que a luz não fosse mais do que o reflexo da lareira da sala da casa de uma família marciana. É conjecturável que talvez se tratasse do luzir de um poste de iluminação de uma rua do sítio. Pode ser até que os reflexos de luz em Marte sejam uma prova da existência de vida inteligente em Plutão ou em qualquer outro planeta onde haja o interesse em construir sondas para explorar Marte. Ou, então, é possível que a luz fotografada não seja mais do que o reflexo da luz solar na superfície de uma rocha, o que é a explicação mais científica, porque é a mais cautelosa. Isto porque aquela luz, como todos os indícios que até agora tivemos da existência de vida inteligente no espaço, pode ser qualquer coisa.

Pessoalmente, não tenho qualquer interesse em sentenciar dogmaticamente que não existe qualquer forma de vida inteligente fora do planeta Terra. Embora seja verdade que todo o homem é animal racional, seria um erro inferir daí que todo o animal racional é homem. Os dois conceitos não se identificam formalmente, pelo que não se verifica qualquer contradição lógica em cogitar a existência de uma espécie inteligente que se tenha desenvolvido em outro mundo. Há mesmo quem diga que é um imperativo de justiça que o imenso espectáculo do cosmos comporte mais espectadores.

Por um qualquer motivo, há quem ache que a possibilidade de se vir a descobrir no futuro a existência de vida inteligente extraterrestre coloca problemas à religião. Sem dúvida que a grande interrogação em que salda hoje essa hipótese nos leva a formular alguns problemas religiosos interessantes. Será que os alienígenas sofreram como nós uma queda original? Se a sofreram, será que houve para eles redenção? Será possível que Cristo, depois de ter descido aos infernos, tenha subido a galáxias nas quais se escondem civilizações que nem sonhamos? 

Mas se há problema religioso que a existência de vida extraterrestre não coloca é o problema do desaparecimento da religião. Não o coloca, porque uma tal hipótese não responde satisfatoriamente à questão das origens com a qual intuímos que a religião está intimamente ligada. Algumas pessoas vêem a descoberta de vida inteligente fora da Terra como um encontro com os deuses que nos traria a solução do enigma da nossa origem, e, consequentemente, do enigma nosso fim. É admirável ouvir um evolucionista obstinado como Richard Dawkins admitir, no documentário «Expelled: No Intelligence Allowed», o desígnio de um agente inteligente extraterrestre como uma explicação convincente da origem da vida neste planeta. Acrescenta, não obstante, que esta forma de vida extra-planetária teria ela própria que ter surgido através dos mecanismos cegos da evolução. Ora, mas se é sensato explicar a nossa vida por um desígnio, é ainda mais sensato explicar a vida de seres capazes de formar um tão alto propósito por um desígnio. Não serve de nada deslocar o problema das origens para outro sítio. Podemos levá-lo até Marte, e de Marte para Plutão, e de Plutão para outra galáxia; só não podemos é levá-lo ao infinito. O problema da vida não se pode explicar pela intervenção de outra manifestação de vida, porque a vida, enquanto tal, não se pôde causar a si mesma. O fundamento da religião permanecerá intacto se descobrirmos vida fora da Terra, porque permanecerá a percepção de uma dívida, e com ela a correspondente consciência de uma dependência e um correspondente sentimento de gratidão.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Uma piada de Ricky Gervais


Afirmou certa vez o Sr. Ricky Gervais que o facto de ter aprendido a rezar lhe permitiria poupar alguns milhões em doações à caridade. O dito tem a sua graça, principalmente para um ateu que pense que rezar é uma desculpa para não fazer mais nada ou para um cristão que se sinta tentado a rezar só quando não pode fazer mais nada. Mas a graça esconde um lado sério. Ela encerra a acusação de que a oração é uma renúncia a agir. Esta acusação é fundada numa falácia que consiste em opor a acção do Criador à acção da criatura, como se fossem incompatíveis. É pretender que aquele que faz a oração renuncia a agir para dar lugar a Deus, e, que, se porventura fizer o que é humanamente possível, admite afinal que Deus não tem lugar. Este raciocínio poderia ser ilustrado se imaginarmos qual seria a diferente reacção de um cristão e de um ateu à notícia de que um amigo ou parente que passou por uma cirurgia severa se encontra fora de perigo. O cristão provavelmente exclamaria «Graças a Deus!», ao que o ateu prontamente replicaria «Graças aos médicos e à ciência!». Quando o Apóstolo Paulo escreveu aos coríntios que «Paulo semeou, Apolo regou, e Deus deu o crescimento», um céptico grego poderia ter objectado que tendo Paulo semeado e Apolo regado, Deus não tinha nada a ver com o assunto. 

O que esta linha de pensamento sugere é que, para provar que a oração serve de facto para alguma coisa, a vida dos fiéis deveria estar pejada de acontecimentos extraordinários. A terra deveria frutificar sem que Paulo semeasse e Apolo regasse, assim como o doente deveria ser curado sem mesmo precisar de se ir queixar ao médico. A verdade é que não faltam ocorrências extraordinárias na história do cristianismo; mas é também verdade que essas ocorrências são extraordinárias. O modo ordinário pelo qual Deus actua no mundo é outro e é absolutamente razoável que seja outro. A verdade é que podia não haver crescimento, mesmo que Paulo tivesse semeado e Apolo regado, a verdade é que se pode perder uma vida, mesmo quando se faz tudo para a salvar. Uma oração é sempre um reconhecimento da nossa dependência; mas não pode ser um pedido para a nossa saída de cena enquanto actores no teatro do universo. 

Houve um filósofo francês do século XVII chamado Malebranche, que, talvez com o fito de engrandecer o poder de Deus, defendeu que só Ele tinha poder, no sentido de que só Ele era a causa eficiente de tudo o que acontecia no mundo. O que Malebranche não percebeu é que a sua teoria, longe de engrandecer o poder de Deus, o diminuía; porque é possível que Deus seja tão forte que não precise de aniquilar o pequeno poder da criatura para mostrar a sua força; é bem possível que Deus faça resplandecer melhor a sua bondade não tirando aos homens a possibilidade do mérito. O Criador, para atender às petições que lhe são feitas, não precisa de desdizer a resposta que deu à petição que nunca lhe foi feita – não precisa de se substituir à criatura naquilo que desde o início a destinou a fazer; não precisa de lavrar a terra quando o homem conhece os tempos e as condições da lavoura, nem quer prescindir da ciência do médico, porque criou o homem para a ciência. Se não agisse assim, seria igual ao náufrago que, depois de ter construído um bote, prefere salvar-se a nado; ou ao construtor que talha uma porta para depois entrar pela janela. E do homem poderia verdadeiramente dizer-se que era um servo inútil, porque nem de si mesmo se poderia servir. Por isso é que o Sr. Ricky Gervais nunca poderia achar graça à sua própria piada se fosse cristão; porque a Igreja nunca deixou de rezar, embora nunca tenha deixado de fazer caridade. Porque ela sabe que ao homem foi concedido um papel, e que este não lhe será tirado.

terça-feira, 8 de abril de 2014

O poliamor


Aquilo que hoje se designa com a palavra poliamor é a ideia de que se pode amar a mais do que uma mulher como se fosse a única e a mais do que um homem como se fosse o único. É evidente que é isto que se quer dizer, porque a palavra «amor» é entendida no sentido corrente do amor que faz com que um homem e uma mulher subam juntos a um altar. Mas também é evidente que é isto que não se pode dizer, porque não é possível amar alguém como se fosse o único se não se ama alguém como se fosse o único. A dedicação exclusiva de um homem a uma mulher e de uma mulher a um homem, com tudo o que ela implica, é alguma coisa essencialmente distinta daquilo que possa ser o poliamor.

O fenómeno de poliamor não é mais do que o fenómeno da poligamia, só que explicado numa linguagem que sensibiliza mais a nossa contemporaneidade. Murmura-se hoje contra a monogamia, argumentando que é uma instituição arcaica. Por outro lado, há quem defenda a poligamia declarando que é uma instituição ainda mais arcaica, afirmando mesmo que é o arquétipo da família primitiva. Decerto que o casamento realizado na sua forma tradicional, pintado com as cores de uma experiência cultural milenar, envolve também a afirmação da monogamia; mas a cultura é, precisamente, o afastamento da barbárie pelo desenvolvimento intelectual e moral do homem. A certo ponto da sua história comum os homens e as mulheres deverão ter percebido que a poligamia não realiza melhor aquilo que buscam uns nos outros; deverão ter percebido que se pode ter muitos homens e muitas mulheres sem se chegar a saber o que é um homem e uma mulher.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Dos partidos


Um partido é um grupo de pessoas que se une em torno de um conjunto de princípios que não põe em causa. Ora, quando esses princípios são postos em causa, trata-se já de um outro partido; e quando o único princípio que não põe em causa é o de que tudo pode ser posto em causa, já não é um partido. É possível que os democratas façam justiça à democracia, quando permitirem que tudo seja contestado, como também é possível que de repente descubram que foi a própria democracia que foi colocada em dúvida; é possível que os democratas-cristãos, quando admitirem divergências sobre o valor da vida ou da família, se tornem mais democratas, como também é possível que nessa altura já não sejam cristãos.

É complicado suster o equilíbrio que conserva uma identidade, porque o grande perigo de incentivar a diferença é consentir na indiferença. Podemos querer ter todos do nosso lado, mas temos que estar preparados para não ser ninguém, porque o pluralismo aniquila a unidade. Todas estas considerações são triviais - é por esse mesmo motivo que são necessárias. É lógico que uma ideia se aplica a tantos mais indivíduos quanto menos conteúdo tiver. É um dado da experiência corrente de que uma fonte de luz pode iluminar intensamente um ponto do qual está especialmente próxima, mas que pode iluminar uma área maior se dispersar a luz. E, estranhamente, parece-me que os nossos ideais já não reluzem como antes. Tenho um certo receio de que seja por já não termos ideais, ou por algo ainda mais trágico, por estarmos dispostos a abraçar qualquer ideal.

Todos estes pensamentos são úteis para estabelecer a seguinte proposição: a ideia de um partido que permita todas as opiniões é uma ideia muito próxima de uma contradição nos termos.