segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O livro de Chesterton sobre São Tomás de Aquino (I)


Descreveram um dia Chesterton como o rei do paradoxo em literatura. E talvez que resulte justa essa atribuição. Porém, o que se não pode ignorar, se existe o propósito de falar com justiça de Chesterton, é que esse aspecto característico da sua escrita, que correspondia primordialmente à dinâmica da sua actividade mental, é qualificativo demasiado estreito para que um homem da sua envergadura possa ser abarcado por ele. Mesmo atendendo apenas às dimensões físicas do homem das letras britânico, muitas coisas apareciam demasiado pequenas quando comparadas com ele - eram 140 kg de porte inglês, espraiados por dois metros, a contar do seu inseparável chapéu para baixo. Se se quiser então considerar a sua alma, da qual a sua extensa produção literária nos dá os mais notáveis vislumbres, pretender que ela possa acomodar-se sob o título de rei do paradoxo, é mais insensato do que tentar passar o seu corpo pelo buraco de uma agulha. 

Tenho a suspeita de que também Chesterton foi vítima daquela «partida muito vulgar para diminuir os homens de letras ou de ciência» e que consiste em «dar nomes a toda a gente, relacionando-os com qualquer  particularidade, como se as pessoas não fizessem nunca senão isso». Pode ser que tenha sido isto o que aconteceu com Tomás de Aquino quando lhe começaram a chamar Doutor Angélico, talvez não porque ele tinha a inteligência de um anjo, mas porque uma qualquer efabulação posterior lhe tenha atribuído uma preocupação quase exclusiva com os anjos - uma tentativa obscura de depreciar o seu génio universal. Certamente, é o que acontece com Chesterton sempre que é retratado como um homem que se entretia a amontoar paradoxos sobre as páginas dos seus livros. Uma das muitas coisas que estes dois homens têm em comum é o seu universalismo. Existem outras: para além das parecenças físicas - segundo os melhores relatos, Santo Tomás era também de grande estatura e bastante pesado -há as semelhanças no espírito, que são as essenciais: ambos viviam uma intensa vida mental, que, por se traduzir não raras vezes numa propensão para o mutismo, era estupidamente confundida com estupidez; eram os dois criaturas maravilhadas pela surpresa suprema da Criação; eram homens repletos daquele senso comum que parece destinado a ser cada vez menos comum entre os homens; e há também os que afirmam que os dois eram santos.

Santo ou não, Chesterton assemelhava-se em grande medida a Tomás de Aquino e talvez tenha sido essa percepção que o motivou a escrever Saint Thomas Aquinas - São Tomás de Aquino -, cuja tradução para português feita pela Companhia de Jesus há sete décadas foi agora reimpressa sem alterações pela Alêtheia Editores. Nesta obra, uma das mais memoráveis do seu percurso literário, Chesterton narra a biografia do frade dominicano e oferece uma introdução à filosofia do Doutor Angélico que é também uma janela amplamente aberta para o seu próprio pensamento. 

Se é por força que se quer colocar Chesterton sob algum título mais ou menos elucidativo do significado da sua obra, talvez aquele que mais contente seja o que lhe atribuiu Dale Ahlquist, Presidente da American Chesterton Society, quando lhe chamou o Apóstolo do Senso Comum. É-o porque, de facto, ao contemplar a vastidão da obra de Chesterton percebemos em todos os seus pontos o esforço para reanimar no homem moderno aquele «comum sentido das realidades» que não poucas vezes delimita a fronteira entre a sanidade mental e a loucura. A filosofia moderna, já naquele tempo e até hoje, tem preenchido milhares de volumes com afirmações e teorias que parecem tão inofensivas quanto exageradas quando estão comprimidas entre uma capa e uma contracapa, mas que se assumidas com franqueza em voz alta soariam como completos absurdos, que nenhum comum mortal estaria disposto a aceitar. Escreveu Chesterton em outro livro que hoje a maioria dos homens já não aceita como critério para avaliar a admissibilidade de uma ideia a possibilidade de ela condenar uma alma ao inferno; mas ainda hoje é geralmente aceite o critério que permite dizer se ela pode encerrar um cidadão no manicómio. Ora, acontece precisamente que o muro que separa o hospício da rua é o mesmo que separa os filósofos modernos dos homens comuns: o subjectivista que tente proceder em pleno acordo com o seu pensamento, agindo como aquilo que vê, ouve e palpa não fosse mais do que uma ilusão construída pela sua mente, rapidamente será constrangido pela dura objectividade da camisa-de-forças; e Hegel, por mais que nos tente convencer de que existe e não existe ao mesmo tempo, dificilmente poderá sequer convencer alguém de que acredita sinceramente nesse disparate. Chesterton, que definitivamente está do lado de cá do muro, encontra também Tomás de Aquino ao lado do homem da rua, que afirma sem dúvidas que ovos são ovos e, portanto, não são galinhas. Não só a filosofia de Santo Tomás não contraria a metafísica natural do espírito humano - como lhe chamou Bergson - como lhe dá a justificação sistemática. Para fazer isto, afirma primordialmente uma condição muito simples - que o espírito humano conhece o ens, isto é, o ser. É através da percepção do ser que a inteligência humana alcança depois todas as verdades. À questão de Hamlet, que pergunta dramaticamente "Ser ou não ser?", Tomás de Aquino responde categoricamente "Ser" - e quase que podemos imaginá-lo a selar esta resposta com um murro na mesa, como fez um dia à mesa do banquete de Luís IX de França, quando achou um argumento contra o maniqueísmo. Como escreve Chesterton: «São Tomás descobriu (...) que um homem ou tem que responder a essa pergunta afirmativamente ou doutro modo nunca poderá responder a qualquer pergunta, nem fazê-la, nem mesmo existir intelectualmente, para responder ou para perguntar».

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