quinta-feira, 7 de julho de 2016

Cabo Verde: um modelo de sucesso

O padrão de vida em África, em vários campos, ainda está longe do da Europa. No entanto, Cabo Verde lidera a marcha do desenvolvimento económico e social daquele continente. Este pequeno Estado arquipelágico usufrui na actualidade de um jovem, mas estável, regime político, em que as liberdades cívicas estão garantidas e a sucessão no poder ocorre sem sobressaltos. Não dispondo de muitos recursos naturais, converteu-se num centro de serviços de forte atractividade para capitais estrangeiros e tem conseguido melhorar, gradual mas ininterruptamente, as condições de vida da sua população. A ampla produção legislativa das últimas décadas tem renovado estruturas jurídicas e coberto lacunas legais nos planos de desenvolvimento social. Ainda há, é claro, muitíssimo a fazer. Para percorrer este caminho, Cabo Verde deve poder contar com Portugal, a que está ligado por laços afectivos e culturais ainda tão fortes.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sobre o comércio externo do Reino Unido

Abaixo, dois mapas. O primeiro representa os países com os quais a União Europeia mantém algum tipo de acordo comercial. O segundo representa os países com os quais a Suíça, que não é membro da União Europeia, mantém algum tipo de acordo comercial.


Os acordos comerciais da União Europeia não abrangem as potências económicas tradicionais dos Estados Unidos e do Japão nem os colossos emergentes da China ou da Índia. De fora dos acordos comerciais internacionais da União Europeia estão ainda países importantes nas relações internacionais do Reino Unido, como a Austrália e a Nova Zelândia.

A Suíça não parece ter-se saído nada mal, por comparação. Além de manter relações económicas favoráveis com a União Europeia, que detém uma quota de apenas 15% do mercado mundial, conseguiu obter o acesso a boa parte dos demais 85% desse mercado.

Aos mapas, acrescento um gráfico que mostra a evolução dos últimos anos da quota da União Europeia na totalidade das exportações de bens e serviços do Reino Unido, com previsão feita em 2015 para os anos seguintes.






Interpretações ao cuidado de quem lê.

(Agradeço as blasfémias do João Miranda)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O desafio da Europa

(Texto publicado no primeiro número da revista do Núcleo de Estudantes Católicos da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa)

A Europa viveu sempre uma existência desafiada. Como Hércules, ainda no berço, estrangulou as serpentes de Hera, também a Europa nascente repeliu a grande serpente asiática, destroçando Dário em Maratona e encurralando Xerxes nos estreitos de Salamina. A formação do colosso Romano serviria de contraponto ao assalto do Oriente até que as fronteiras do Reno e do Danúbio fossem forçadas, e feita em ruínas a ordem antiga, competisse à religião cristã a glória de resgatar a Europa, logrando a síntese do espírito grego e romano dentro de um novo horizonte de sentido.

O continente que se lança no mar, costeando África, comerciando na Ásia, desbravando mar até à América, parece converter-se no eixo de rotação do grande fenómeno humano, embora o venham em breve a varrer os cismas da Reforma, a agregação classista da revolução industrial e o tumulto das várias etnias, sem ágora comum onde se encontrem. Como consequência final, a Europa cavará a sua sepultura nas trincheiras da guerra, vindo depois a ser partida entre os campos de influência de potências ideologicamente motivadas.

Suplantada a divisão política, a Europa estreita-se hoje entre três grandes blocos: o dos Estados Unidos, que em todo lugar parece perseguir o intento que cada vez mais lhe escapa de manter uma ordem mundial unipolar; o da Rússia, que retorna na aparência à raiz que comunga com o Ocidente desde a evangelização dos eslavos por Cirilo e Metódio e o baptismo de Vladimiro, em 988, mas que se define por contraste com a Europa que já não crê; e o cada vez mais altaneiro Crescente, que sobre ela, incerta e fraca, se agiganta, vivo e forte.

Mas nenhum desafio é maior do que aquele que a Europa põe a si mesma. Ela não se destacou da Ásia e ganhou autonomia em razão de rígidas fronteiras geográficas, mas por causa da sua cultura. Não são tanto as colunas de Hércules e os Urais, como os desfiladeiros solares da Grécia, as colinas de Roma e os muros de Jerusalém que a delimitam. Se perder a sua mirífica cultura, não existirá mais. E, hoje, a Europa assemelha-se ao homem que subiu ao topo da montanha apenas para se derribar no mais fundo precipício. Tendo tudo isto em atenção, o NEC propõe à Faculdade dois momentos de reflexão. 

Foi na Europa que primeiro se esconjurou a tirania do mito e se reconheceu que há uma ordem do mundo, que integra também uma ordem das relações humanas. A subversão desta ordem assume ultimamente a forma da ideologia do género, expressão acabada de um misticismo que radicaliza a dualidade de corpo e espírito e de um individualismo atomista que é carrasco de civilizações. 

Foi também neste continente que o homem começou de maneira mais perfeita a medir a sua vida pela transcendência. Também essa liberdade – a liberdade religiosa – é ameaçada por um positivismo próprio de uma razão mutilada, que formula as suas teses cada vez mais dogmaticamente. Os dogmas do género têm, aliás, nesta guerra, servido como pretexto para escorraçar do espaço público as religiões que ousem defender o matrimónio tal como ele é. 

Pensar sobre a ideologia do género e a liberdade religiosa é, pois, lembrar que ante a sedução dos misticismos e das barbáries, o desafio da Europa foi sempre, será sempre, o de ser Europa.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As prioridades

O debate político em Portugal espanta o observador por vários motivos. Um dos seus aspectos particularmente surpreendentes é a quase completa concentração das preocupações públicas nas questões económicas e financeiras. A ideia formada no espectador de todas as polémicas eleitorais é que os partidos se distinguem sobretudo pela sua proposta de Orçamento de Estado e que é realmente do Orçamento de Estado que depende a sobrevivência do país. Podia bem ser que tudo se resumisse a uma conspiração e, se o fosse, seria uma conspiração de sucesso - a de conduzir toda a nossa atenção para assuntos dessa natureza, a de nos fazer crer que os Partidos se dividem e opõem em Esquerda e Direita por causa deste ou daquele artigo da lei orçamental, enquanto nos bastidores se urde discreta uma teia complexa em torno das coisas verdadeiramente essenciais.

A economia e as finanças são bolorências necessárias. Se dissermos que a acção económica e as contas públicas são sempre meios e não fins, porque o homem económico, antes de ser económico, é homem, estaremos a repetir uma ideia feita, mas proferiremos também uma verdade que raras vezes é inteiramente compreendida. A ruína das civilizações não foi nunca alheia às crises da economia, porque a vida humana não pode ser alheia ao labor de produção que a sustenta. Mas é difícil recalcitrar com a dialéctica atraente de Gibbon quando argumenta que o carrasco da altiva civilização Romana foi o individualismo frustre que se substituiu ao espírito cívico e ao comedimento natural das virtudes e evitar generalizar a conclusão para todos os grandes desastres protagonizados pela raça humana.

No centro deste abatimento do espírito dos povos situam-se problemas que parecem pequenos aos insignificantes que governam os Estados, como o intricado problema constituído por aquele agregado humano elementar a que chamamos família. As propostas do Partido Socialista em relação ao aborto voluntário, à transmissão artificial da vida humana e ao estatuto de adopção de crianças privadas por este ou aquele motivo da sua família natural inquietam-me mil vezes mais do que o estado certamente desastroso das contas públicas nacionais no final de um mandato da Esquerda. As contas públicas sempre podem ser emendadas, depois de maiores ou menores dificuldades; mas um naufrágio não pode ser revertido. 

Os princípios mentais que explicam o presente naufrágio já assentaram as suas raízes há bastante tempo, talvez há bastante mais tempo do que a maior parte das pessoas possa pensar. O que já não se explica tão prontamente é o silêncio circunspecto dos conservadores, que, se quisermos crer no testemunho de Russell Kirk, deveriam acreditar numa ordem moral duradoira, mesmo eterna, que urge preservar para que se perpetuem também os benefícios da liberdade de coerção estatal e da propriedade a que presentemente tendem a conferir mais ênfase. É claro que mais vale permanecer calado do que repetir as inconsistentes e pouco informadas intervenções de alguns deputados da ala direita do Parlamento – assim chamada – nos debates que antecederam as grandes mudanças jurídicas do estatuto da família nos últimos anos. Em geral, descontando outras imbecilidades, esses deputados limitaram-se a cometer o erro de dizer que não eram aquelas as suas prioridades, que o Parlamento devia era falar de contas. Sempre as malditas contas. Entretanto, à sombra da aritmética, aquelas prioridades triunfavam, sacudindo todo o edifício social pela base. O que nos deixa onde começámos.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Alguns aspectos da trama energética internacional

A Gazprom, maior distribuidora russa de gás natural, retomou a 12 de Outubro o fornecimento de gás à Ucrânia. Hoje, soube-se que pretende reduzir os preços das suas exportações de gás natural em razão de um decréscimo dos lucros no mercado europeu. Entretanto, os governos da Polónia e dos Estados Bálticos assinaram a 15 de Outubro um acordo de construção do primeiro gasoduto a ligar o Báltico à Europa ocidental, a fim de integrar aqueles países no mercado de gás da União Europeia, pretendendo evitar assim o seu isolamento energético. Quase todo o petróleo e gás natural dos Estados Bálticos são fornecidos pela Rússia.

Por seu lado, a Rosneft, maior companhia petrolífera russa, compete agora na Europa de Leste com a Arábia Saudita, que começou recentemente a vender petróleo à Polónia a preço de saldo. Decerto não alheia a tudo isto, desde o início de Outubro que a Lukoil – outro dos gigantes petrolíferos russos, pertencente, tal como a Rosneft, ao Estado – anunciou que tenciona voltar a explorar o campo petrolífero e de gás natural de Azar, no Irão.

Factos como estes sugerem pelo menos duas conclusões. A primeira é que a nova posição da Rússia na ordem internacional, principalmente desde os recentes episódios na Crimeia, tem gerado alguns efeitos negativos importantes para a sua economia, em virtude da tentativa dos países europeus limítrofes de minorar a sua dependência energética da Rússia, obrigando-a a procurar novos mercados onde venda os seus combustíveis, sobretudo na Ásia, alargando o distanciamento dos países da União Europeia.

A segunda conclusão é que a Síria, na qual as forças armadas russas têm intervindo militarmente, contra o parecer dos sauditas, é um território de charneira na disputa entre a Arábia Saudita e a Rússia pelos seus mercados energéticos. É pela Síria que passarão para a Europa condutas com petróleo que, forçosamente, ou será saudita ou será iraniano.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Deparo-me com um ateu...

Deparo-me com comentários de um ateu numa das caixas de comentários da internet e sempre espero ler uma demonstração decisiva de que não existe Deus. Nunca a li. O mais que fazem é esboçar uma ténue comparação entre Deus e as divindades dos Antigos, seja Rá, seja Zeus, ou qualquer outra entidade mitológica, o que apenas prova que, na maior parte dos casos, o ateu nem mesmo tem um conceito uno do que seja Deus, ou não O compararia a personagens que mais não são do que humanos de atributos extraordinários. 

A razão decisiva do ateu que mais recentemente li reduz-se a um "Eu nunca vi Deus"; portanto, Deus não existe, ou pelo menos, não há razões para acreditar que Ele exista. Há que perguntar-lhe se ele mesmo não se faz uma espécie de deus quando determina que, porque no seu limitado espectro de visão, enquanto vive perdido num dos inúmeros planetas que existem neste universo, confinado a uma pequena porção dele, se não vê uma coisa, ela não existe. Se o astrónomo que viu Neptuno pela primeira vez partilhasse da mesma filosofia, também proclamaria tê-lo criado quando o olhou pelo telescópio. 

E, é claro, embora pareça pela experiência comum que é necessário que cada ser humano tenha naturalmente pais, e, portanto, tenha também avós, bisavós e tetravós, só porque alguém nunca viu os seus avós, bisavós e tetravós, estaria autorizado, se pertencesse à mesma escola de pensamento deste ateu, a declarar que não os tem ou que não vê razão para acreditar que os tem. 

Seria, certamente, um caso de interesse para a ciência; talvez, quem sabe, a confirmação da teoria da geração espontânea, a do rapaz ou a dos seus pais.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Livros que salvam: Egalitarianism as a Revolt Against Nature

O norte-americano Murray Rothbard pensa fora das categorias clássicas. O alicerce sobre que constrói intelectualmente é a praxeologia de Ludwig von Mises. Não há na sua escrita vestígios do estudo da tradição antiga de sabedoria sobre a lei natural. No entanto, encaminha-se à verdade daquela sabedoria por vereda própria.

O seu ensaio Egalitarianism As a Revolt Against Nature é uma crítica exacta e límpida do igualitarismo. Essa meia dúzia de páginas capta perfeitamente a essência do pensamento igualitário como uma revolta contra a estrutura da realidade. O escrito data do ano de 1974, mas a sua novidade permanece incorrupta, como se houvesse ainda neste instante saído das mãos do seu autor.

Rothbard fundeia águas mais profundas do que o liberal simplório e não se ludibria com o igualitarismo encapado de liberdade. Confronta-nos cortante e fluido, quase com rudeza. Neste tempo que é o nosso, é uma janela aberta a deixar entrar ar fresco. É da espécie de livros que nos salva de embrutecermos a bater o rasto da carneirada.

sábado, 27 de junho de 2015

Publicação dramaticamente reaccionária. Chega a invocar-se a natureza.

Tornaram a escorrer da pena da deputada Isabel Moreira algumas considerações sobre o tema da natureza. O assunto entra na predilecção da autora. Ainda nem há dois anos publicou um artigo na nossa imprensa cunhado com o título Antinatural, felizmente. Já o novo texto tem o título É bom porque não é natural.

Isabel Moreira dispõe de muitas horas nos televisores e de muitas páginas na nossa imprensa escrita, o que lhe vale certa influência política. Como emprega argumentos para tentar defender os seus preconceitos, é até justo dizer que é uma intelectual de esquerda. Apenas esta conjuntura acidental desculpa quem lhe dirija uma resposta séria. Se o estrago que provoca é público, remediá-lo, ainda que apenas em parte, é serviço público.

O nome natureza tem plúrimos sentidos. Isabel Moreira não os destrinça, e, como inevitável consequência, confunde-os. Há a distinguir no vocábulo natureza pelo menos dois sentidos:

(1) Natureza enquanto se contrapõe a artefacto, assim como se contrapõe natural a artificial, e neste sentido se diz que a madeira é natural, mas a cadeira é artificial, e neste sentido também as construções tecnológicas e culturais se opõem ao estado de natureza;

(2) Natureza enquanto ordenação de uma coisa aos seus fins, assim como se diz que é natural que o homem veja e não é natural que o ser humano não veja, como, por exemplo, se sofrer de um defeito da vista.

Ora, estes dois sentidos da palavra natureza são diferentes o bastante para que todo o discurso da deputada se equivoque e se enleie em conclusões inválidas.

Todo o artefacto, por sua definição, não é natural, porque não é produzido imediatamente pela natureza, mas somente pelo labor humano. Porém, o artefacto é natural no ser humano. Resultaria deste arrazoado um paradoxo, não se houvesse já distinguido dois sentidos possíveis dos vocábulos natureza e natural. No segundo desses sentidos, o fabrico e o uso de artefactos são naturais ao ser humano, porque são a expressão da sua capacidade de ordenar meios aos fins.

Serve sempre a pedagogia considerar um exemplo. Um par de óculos não se encontra na natureza, como se encontram água ou maçãs. Na verdade, até que alguém a quem muito estimo os inventasse, a humanidade não se pôde servir desse magnífico instrumento. É justo dizer que um par de óculos não é natural, mas artificial. Mas não é justo dizer que o uso de óculos é contra a natureza considerada enquanto fim. Na verdade, o seu uso é totalmente conforme à natureza humana, uma vez que auxilia o exercício da visão, quando, por algum motivo, esta se encontra diminuída no seu funcionamento.

Isabel Moreira começa o seu argumento com a premissa de que é bom o progresso porque nos afasta da natureza. É evidente que fala nesse lugar da natureza enquanto esta se contrapõe àquilo que é produzido pelo ser humano, como, aliás, se infere da afirmação de que a doutrina dos que a invocam, se levada ao máximo de consistência, «teria de ter a honestidade de fazer a apologia da nudez, sem direito à parra do jardim do Éden». E posta a premissa, conclui de imediato contra a natureza que, por exemplo, são coisas boas a procriação medicamente assistida e o aborto.

Para deparar com a falácia do raciocínio, faça-se como os escolásticos: distinga-se e contradistinga-se. Deslinde-se o duplo significado do nome natureza e do adjectivo natural na premissa maior e descubra-se que o argumento, ainda que provasse num sentido, não o provaria noutro. Mas só este outro é que é tem algum interesse para os adversários da aclamada romancista de “Apátrida”.

E confutada a sofista, mais não digo, que não sou nenhum António Araújo.

A hora da sem-razão

Sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal dos Estados Unidos de legalizar a união civil entre duas pessoas do mesmo sexo em todos os Estados federados, consigno-vos por escrito algumas considerações, que certamente são consensuais.

A primeira consideração é que a questão da união civil entre pessoas do mesmo sexo não é verdadeiramente uma questão de igualdade no acesso ao casamento. Ao contrário do que entretanto insinuou o Presidente dos Estados Unidos em exercício, muito tempo antes desta decisão judicial já existia naquele país a possibilidade de homossexuais se casarem e não há notícia de essa liberdade lhes ter sido negada. Nenhum homem ou mulher havia, independentemente de outras qualidades particulares, que não pudesse consorciar-se naquela união de homem e mulher que unicamente constitui o casamento. O que não havia e passou a haver é um novo direito, no âmbito de uma nova criação jurídica, que enganadoramente também se chamará de casamento, e que permitirá que duas pessoas do mesmo sexo se unam civilmente. Não havia, portanto, um problema de discriminação no acesso ao casamento, ao contrário do que muitos nos quererão fazer crer, o que, aliás, é algo que se pode dizer de todos os países em que a questão foi levantada.

A segunda consideração é que a união civil de pessoas do mesmo sexo se coaduna perfeitamente com uma época em que o horizonte moral está apenas confinado pelos limites orgânicos do prazer e da dor. O hedonismo é necessariamente um individualismo, enquanto que o casamento, onde verdadeiramente o é, não é nunca associal. Por isso, o Estado o cristalizou e guardou com as suas leis: porque era o único lugar salubre para o nascimento e educação das gerações humanas, a fonte da perpétua renovação e crescimento social. Hoje, foi descaracterizado na sua veste jurídica: é agora apenas o instrumento de uma ideologia para varrer a cultura e substituí-la por uma homogeneização maligna, que é produto do ódio à distinção e à ordem do mundo da qual aquela é o primeiro elemento.

A terceira consideração é que a realização da agenda de reivindicações do movimento homossexual está intrinsecamente ligada à sempre crescente intromissão da coerção estatal na esfera das comunidades menores e dos indivíduos. O caso dos Estados Unidos é, a partir de hoje, um caso de escola. O Supremo Tribunal desconsiderou a autonomia de todos os Estados federados e retirou aos seus órgãos legislativos e ao seu povo o direito de estabelecer para si mesmos as regras do seu direito da família. Não tardará a que novamente se accione o mecanismo de coerção legislativa, executiva e judicial para instaurar aquela igualdade radical pretendida pelos activistas homossexuais. A questão do casamento e da família toca todos os aspectos da vida de uma pessoa e em todos eles o Estado ocupará um lugar para garantir a existência dessa homogeneidade que não existe hoje, e que se não fosse a acção do aparelho estatal, nem sequer se poderia tentar instaurar. Os que julgam que defendem a liberdade com o poder do Estado, defendem uma liberdade que a si mesmo se devora. 

domingo, 21 de junho de 2015

Resposta a perguntas de leitor sobre causalidade e a eternidade do mundo

Chegaram-me de um amável leitor algumas questões sobre filosofia, que respeitam particularmente aos temas da subordinação de causas eficientes e à eternidade do mundo e à doutrina de Tomás de Aquino sobre estes pontos. Dividi as questões em três perguntas.

Primeira: em que sentido é que São Tomás afirma que uma série de causas subordinadas, ou seja, em que cada uma das causas da série é causada pela anterior, não pode ser infinita?

Segunda: será compatível a afirmação de que uma série de causas causadas não pode ser infinita com a afirmação de Tomás de que é possível que o mundo exista há um tempo infinito?

Terceira: pode uma série de causas causadas circular ser infinita?

Seguirei a ordem das perguntas na resposta.

1. Em que sentido é que uma série de causas causadas não pode ser infinita?


São Tomás afirma que é impossível existir uma série infinita de causas subordinadas. No entanto, São Tomás distingue entre dois tipos de séries de causas subordinadas:

a) Causas acidentalmente subordinadas;

b) Causas essencialmente subordinadas.

A série de causas acidentalmente subordinadas é aquela em que o efeito não depende actualmente da causa para continuar a existir e a agir. Um exemplo desta série de causas subordinadas é a série das gerações humanas. O filho não depende actualmente dos pais para existir ou agir depois do nascimento.

A série de causas essencialmente subordinadas é aquela em que o efeito depende actualmente da causa para continuar a existir e a agir. Um exemplo, quanto à existência, é o dos animais, que dependem a cada momento do influxo de múltiplas causas para existir, como, por exemplo, da actividade das suas células, que, por sua vez, depende de outras causas. Um exemplo, quanto à acção, é o da serra que apenas se move pela mão do marceneiro, e que, quando cessa o movimento da mão, cessa também de serrar.

O que Tomás de Aquino afirma em vários lugares é que é impossível existir uma série infinita de causas essencialmente subordinadas, porque se cada uma das causas apenas existe e age por influxo de todas as causas anteriores, mas nenhuma houvesse que tivesse por si a existência ou o poder de causar, nada existiria e nada seria causado.

Diferentemente, Tomás de Aquino não nega a possibilidade de existir uma série infinita de causas acidentalmente subordinadas. Nos lugares em que examina a questão da eternidade do mundo, como, por exemplo, no breve opúsculo Da eternidade do mundo contra os murmurantes, ou na Suma Contra o Gentios (Livro II, capítulos 31 a 38), Aquino debate-se com o argumento da impossibilidade de uma série de causas acidentalmente subordinadas aduzido para provar a impossibilidade da eternidade do mundo, e rejeita-o como falacioso. Assim, não encontra nenhuma contradição na existência uma série infinita de gerações humanas, nem pensa que se possa resolver definitivamente a questão de saber se nasceu primeiro a galinha ou o ovo, porque esta série galinácea, como toda a série de causas acidentalmente subordinadas, poderia ser infinita.


2. Será compatível a afirmação de que uma série de causas causadas não pode ser infinita com a afirmação de Tomás de que é possível que o mundo exista há um tempo infinito?


A série de causas essencialmente subordinadas implica a simultaneidade do exercício da causalidade por cada uma delas. A consideração do tempo é irrelevante para este caso, e, por isso, a possibilidade de um mundo eterno em nada contradiz a existência de uma série deste tipo. 

No entanto, foram muitos os que tentaram provar que o mundo não é eterno afirmando a impossibilidade de uma série de causas acidentalmente subordinadas. Um mundo que sempre tenha existido parece implicar necessariamente uma série infinita de causas essencialmente subordinadas. Tomás de Aquino propõe alguns exemplos de séries deste tipo que existiriam num mundo eterno, como seria o número infinito de dias passados ou de rotações do sol. Se alguma destas séries fosse infinita, não se poderia transcorrer e nunca chegaríamos a um último termo, como a este dia na série dos dias ou à actual rotação do sol na série de rotações do sol.

Aquino recusou validade a esse argumento, observando muito justamente que a infinitude da série não se realiza simultaneamente, mas sucessivamente. Pode ser que o mundo não tenha tido um primeiro dia, que o número de dias passados seja infinito, mas isso dá-se por partes finitas, e, assim, o infinito pode ser percorrido. A imaginação intromete-se nos caminhos do pensamento e inclina-nos a assimilar o tempo ao espaço, imaginando-o como uma linha contínua. Mas, na verdade, as partes do tempo não nos são todas dadas em simultâneo, como no espaço, mas em sucessão.

A razão mais profunda pela qual não é possível provar de maneira necessária alguma proposição sobre o começo ou a eternidade de qualquer ente é que a consideração da essência de uma coisa prescinde da temporalidade. A essência de um ente, exprimida pela definição, pode ser tomada como princípio de prova em um silogismo para concluir necessariamente uma proposição sobre a coisa. Porém, a essência de uma coisa, enquanto tal, é imutável e exprime sempre uma possibilidade de existir, não implicando considerações temporais.

3. Pode uma série de causas causadas circular ser infinita?


Tendemos a imaginar a série de causas subordinadas como uma sucessão de objectos em linha recta. Mas tentemos imaginá-la como um círculo, em que A é a causa de B e B é causa de A.

É possível existir deste modo uma série infinita de causas essencialmente subordinadas?

A esta hipótese responde-se que o círculo de causas envolve uma contradição, porque se uma coisa é produzida por outra que foi feita por ela, produz-se a si mesma; portanto teria que existir antes de existir, porque só opera aquilo que existe. 

Por conseguinte, qualquer série circular de causas nunca pode encerrar a origem da causalidade, mas apenas pode ser uma cadeia de transmissão da causalidade; pelo que estará dependente de uma causa fora da série.